As torcidas francesa e marroquina que lotaram o estádio de Boston no dia 9 para assistir à partida pelas quartas de nal da Copa do Mundo percorreram cerca de 40 quilômetros entre a região central da capital do estado de Massachusetts, nos Estados Unidos, e a arena.
Originalmente conhecida como Gillette Stadium, ela nem mesmo está em Boston, mas em Foxborough, uma pequena cidade do condado de Norfolk.
A exemplo dos também temporariamente rebatizados estádios de Nova York/Nova Jersey (MetLife), Dallas (AT&T) e San Francisco (Levi’s), ele também fica afastado da cidade tida como referência pela Fifa (Federação Internacional de Futebol) durante o torneio.
Com isso, o “estádio de Dallas” fica, na verdade, em Arlington, e quem foi até lá para assistir à partida que classificou a Espanha para a final da Copa levou pelo menos uma hora para chegar.
Quem não quis enfrentar trânsito e disputar vagas de estacionamento precisou combinar uma hora e meia de trem com mais um ônibus até o estádio.
Esse espraiamento geográfico das arenas esportivas nos EUA pode ser explicado por uma combinação de fatores –sobretudo econômicos.
“O preço do terreno nessas grandes metrópoles americanas é enorme. Você tem um processo até de expulsão desses estádios das áreas mais centrais, pois se tornam muito caros”, diz Fernando Rossetto Gallego Campos, do Instituto Federal de Santa Catarina, que pesquisa geografia e futebol.
Há ainda dois traços culturais importantes. Um é que a cultura esportiva americana é de negócios.
“Os times não são clubes, são franquias privadas, muitas vezes nem são donos dos estádios, que pertencem a outros grupos privados”, diz Rossetto. “O estádio é um negócio e, sem qualquer juízo de valor, um negócio é mais viável quanto maior a margem de lucro.”
Assim, estar longe de grandes centros garante a esses grupos econômicos menos custos operacionais e terrenos mais baratos.
O outro traço cultural identificado pelo pesquisador refere-se à distribuição e ocupação do espaço urbano americano, que dá prioridade ao uso do automóvel. “Há uma cultura de pegar o carro, ir para o estádio e estacionar lá.”
Esse hábito demanda algo que também falta em grandes cidades: espaço para estacionamento. O MetLife, ou Nova York/Nova Jersey, durante a Copa, que será o palco da final no domingo, tem cerca de 27 mil vagas de estacionamento.
O estádio Maracanã, no Rio de Janeiro, por exemplo, tem 526 vagas de estacionamento que ficam fechadas nos dias de jogos. Entre os estádios mais novos, já construídos sob o “padrão Fifa”, a Neo Química Arena, casa do Corinthians no bairro de Itaquera, em São Paulo, conta com 3.900 vagas.
Quem decidir ir até lá de carro para a partida do time da casa contra o Remo no dia 23 –o estádio é ligado ao metrô por uma passarela– vai pagar R$ 147 para estacionar.
Nas arenas americanas, o estacionamento é parte do negócio dos estádios, algo que o Brasil replica, concedendo a empresas privadas a exploração e administração dessas vagas.
No estádio do Palmeiras, o Nubank Parque, antigo Allianz (construído onde um dia foi o Palestra Itália ou Parque Antártica), os estacionamentos custam a partir de R$ 70.
O MetLife, apesar do apelido dado pela Fifa, fica no estado de Nova Jersey, na cidade de East Rutherford. No início da Copa, a arena ganhou certa notoriedade por não permitir que o torcedor chegue a pé. Uma das opções mais viáveis é chegar ao complexo usando o trem que sai de Nova York. Em dias comuns, a tarifa custa US$ 12,90 (cerca de R$ 65). Para os dias de jogos, chega a US$ 150 (cerca de R$ 765), ida e volta.
A relação dos americanos com essas arenas também se difere da que em geral se tem no Brasil, quando o estádio está colado com o bairro em que está e com o clube que nasce naquela região. “O estádio é muito identificado com o clube, ainda que você tenha casos como Maracanã ou Mineirão, que não são de um clube só”, afirma Rossetto.
Isso talvez explique a ociosidade, no Brasil, de estádios como a Arena Pernambuco, em São Lourenço da Mata, a 19 quilômetros do Recife, ou uma viagem de cerca de 40 minutos de carro. “Acabou não pegando, e a distância é um dos fatores”, diz o pesquisador. “A torcida preferia assistir a jogo na Ilha do Retiro, no [Mundão do] Arruda, no Aflitos do que ver seu time no estádio que não era o deles. Há o valor afetivo.”
Por outro lado, “nos Estados Unidos, você demole o estádio, constrói outro em outro lugar”, diz Rossetto.
Não só se constrói outro, como os times mudam de cidade sem que isso seja um grande problema. Foi o caso do San Francisco 49ers, que em 2014 se transferiu para Santa Clara, a 50 quilômetros do aeroporto de San Francisco. Seu estádio desde então é o Levi’s.
Outra situação é a do estádio Shea, no Queens, em Nova York, que foi demolido a partir de 2008, levando os Mets para a casa vizinha, o Citi Field. Onde um dia foi o Shea hoje fica o estacionamento do Citi.

