A manutenção do uso de antibióticos por um período superior ao recomendado por médicos expõe o organismo a um desequilíbrio na microbiota intestinal e acelera o avanço da resistência bacteriana, um dos maiores desafios da saúde pública global.
Em vez de garantir a cura de uma infecção, a extensão desnecessária da terapia medicamentosa reduz a concorrência entre os microrganismos naturais do corpo e abre espaço para a proliferação de patógenos oportunistas, como fungos e bactérias altamente resistentes a tratamentos convencionais.
O corpo humano convive diariamente com bilhões de microrganismos que habitam o trato gastrointestinal, a pele e as mucosas de forma harmônica. No entanto, quando um antimicrobiano é administrado, ele não atua exclusivamente sobre o agente causador da doença.
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do Metrópoles Saúde e Ciência
“Nosso corpo convive com muitas bactérias que vivem em harmonia. Quando usamos antibiótico para alguma que está causando infecção, atingimos as demais, o que pode causar uma desregulação da microbiota”, afirma Pablo Eliack, infectologista dos hospitais Unimed Fortaleza, Unimed Sul, São José de Doenças Infecciosas, Unichristus e Haroldo Juaçaba.
A dinâmica farmacológica explica por que o excesso do remédio exige cautela individualizada. “Cada antibiótico tem características próprias de absorção, distribuição, metabolização e eliminação. Por isso, fatores como função renal e hepática, idade, peso e outros medicamentos em uso podem interferir na dose e no intervalo adequados”, explica a médica infectologista Raíssa Moraes, do Portal Afya.
A especialista pondera que o foco principal deve ser o equilíbrio e o objetivo é garantir exposição suficiente ao antibiótico para tratar a infecção, sem expor o paciente desnecessariamente a doses excessivas ou a um período maior do que o necessário. Tanto doses insuficientes quanto excessivas podem trazer problemas.
Um estudo de 2021 do American College of Physicians (ACP) aponta que tratamentos antimicrobianos desnecessariamente longos aumentam significativamente o risco de eventos adversos, como infecções graves por Clostridioides difficile — bactéria responsável por quadros severos de colite e diarreia diária —, sem oferecer benefícios adicionais na cura da infecção primária.
O trabalho científico defende que cursos mais curtos de antibióticos para infecções comuns, como pneumonia e infecção urinária, mostram eficácia equivalente e reduzem danos colaterais ao paciente.
Microbiota inteira é afetada com antibióticos
A diminuição da população bacteriana nativa também elimina a barreira natural contra outros microrganismos que habitam o corpo em menor escala.
“A nossa microbiota pode mudar selecionando algumas bactérias. Como o antibiótico para uma pode não atingir outra, a concorrência diminui e essa outra se prolifera no organismo”, explica o infectologista Eliack.
O especialista destaca ainda o impacto sobre a população fúngica. “O uso de terapia antimicrobiana pode favorecer o crescimento de fungos que também convivem no nosso corpo, como a Candida, pois a redução da microbiota bacteriana favorece o crescimento deles”, afirma.
A exposição prolongada às substâncias químicas funciona como um estímulo adaptativo para as bactérias sobreviventes. Diante do ataque contínuo, os microrganismos desenvolvem mutações genéticas e mecanismos de defesa para impedir a ação do remédio.
“O uso prolongado aumenta a exposição a essas bactérias que, como qualquer ser vivo, tentam se adaptar ao meio para sobreviver. Elas desenvolvem mecanismos que impedem a ação do antibiótico e dificultam seu tratamento”, pontua Eliack. Caso essas bactérias adaptadas voltem a causar um quadro infeccioso no futuro, as opções terapêuticas disponíveis tornam-se escassas.
A definição da duração de um tratamento não é arbitrária e decorre de testes clínicos rigorosos que analisam a gravidade do quadro e o perfil do patógeno. O tempo de tratamento para cada infecção é definido através das evidências científicas de vários estudos bem controlados. Depende do tipo de microrganismo isolado, do sítio e da gravidade da infecção.
Eliack afirma que a ciência médica caminha para protocolos cada vez mais enxutos e conta que, com novas evidências, é perceptível que tratamentos mais curtos são tão eficazes quanto os mais prolongados em boa parte dos casos, com a vantagem de menor risco de desenvolver resistência bacteriana e eventos adversos.
Controlar o tempo exato de administração dos fármacos é fundamental para conter a emergência de superbactérias. Seguir rigorosamente o prazo determinado na prescrição e evitar o uso por conta própria são medidas indispensáveis para conter a perda de eficácia dos medicamentos e preservar a saúde do microbioma.
