A transformação digital das áreas fiscais caminha para uma nova fronteira: se a automação de tarefas repetitivas já é uma realidade para departamentos tributários em empresas de diferentes portes, agora, a inteligência artificial permite que a corrida da digitalização
No Brasil, esse movimento ocorre em paralelo ao avanço da agenda da Reforma Tributária que, em um primeiro momento, aumenta a complexidade da gestão fiscal para as organizações, haja vista tanto a necessidade de adaptações em rotinas, sistemas e modelos de gestão, quanto a longa convivência entre o regime atual e o novo, que se estenderá até 2033.
Nesse contexto, é natural que cresça o interesse por ferramentas capazes de acelerar pesquisas, analisar documentos, acompanhar alterações legais e apoiar atividades de compliance. O erro está em concluir que esse avanço reduz a importância do especialista tributário. Na prática, ocorre o contrário.
A IA pode localizar normas, resumir regulamentos, comparar dispositivos legais ou sugerir interpretações com enorme velocidade. No entanto, um sistema não é responsável por processos decisórios e não conhece as particularidades da operação de cada empresa, as premissas adotadas em seu planejamento tributário nem os riscos que determinada decisão pode produzir sobre contratos, preços, fluxo de caixa ou relacionamento com o Fisco. Essas conexões continuam dependendo de profissionais aptos a interpretar a legislação em diálogo com a realidade do negócio.
Tomemos novamente como exemplo a Reforma Tributária. Nos próximos anos, as empresas conviverão com normas sendo construídas e novos tributos, em um ambiente que exigirá análises permanentes e atualização constante. Não basta saber o que mudou na legislação. Será necessário compreender como cada mudança altera processos internos, parametrizações de sistemas, formação de preços, créditos tributários e obrigações acessórias. Trata-se de um trabalho de interpretação que não pode ser delegado integralmente a nenhuma tecnologia.
É justamente por isso que a IA tem maior potencial como instrumento de ampliação da capacidade produtiva das equipes fiscais do que como substituta de seus profissionais. Ao reduzir o tempo gasto com pesquisa documental, consolidação de informações e revisão de textos normativos, ela libera espaço para atividades que dependem de julgamento especializado.
Segundo estudo da Technavio, aliás, plataformas baseadas em IA já conseguem reduzir em até 50% o tempo de revisão de documentos, enquanto soluções de monitoramento regulatório diminuem em mais de 70% o risco de não conformidade ao acompanhar alterações regulatórias de forma automatizada. Não por acaso, o mercado de IA voltado para consultoria tributária e jurídica deverá crescer, em média, 14,7% em todo o mundo até 2029.
Ainda assim, identificar uma mudança legal é apenas parte do desafio. Entender seus efeitos sobre contratos, operações e modelos de negócio continuará sendo uma atribuição essencialmente humana.
Com tudo isso, é possível afirmar que, em ambientes regulatórios cada vez mais complexos, o valor do especialista passa a estar naquilo que nenhuma tecnologia consegue assumir: interpretar o contexto, avaliar riscos e decidir com responsabilidade.
