Esporte

Os que correm para não morrer – 24/08/2026 – No Corre


Há pessoas que morrem porque correm, ou melhor, porque, muitas vezes cardiopatas, não resistem a certo esforço físico. Em menos de um mês, dois homens, amadores de 46 e 50 anos, morreram durante o cascalho ou logo depois dele, em São Paulo.

A repercussão disso foi imediata, tal qual é, digamos, a de qualquer tragédia aérea. Por outro lado, não é costume noticiar que todos os cerca de 150 mil voos comerciais diários do mundo foram concluídos sem acidentes e sem vítimas fatais.

Dito isso, há aqueles que correm para NÃO morrer. Caso fossem obrigados a parar de correr talvez morressem de depressão, de complicações derivadas do sedentarismo ou simplesmente de tédio.

Caso de Francisco Lima, 93 anos, que no último dia 9 completou em 5:34:52 a maratona de Uberaba e que, como disse à coluna, tem provas em setembro no ABC e em São José dos Campos.

Depois, em novembro, há talvez as maratonas de Brasília e Curitiba e uma prova no Maranhão. Sua meta é chegar a 200 competições até o aniversário de 94 anos, em maio. Está a 26 corridas disso —o dobro exato da quantidade de maratonas concluídas por este colunista.

Ele também disse à Folha que corre na esteira duas vezes por semana e em outros dois dias treina velocidade —segundo ele, num ritmo digno de um famoso jamaicano. “Só tem dois no mundo que correm assim, eu e eu.”

Seu Francisco vive sozinho em Goiânia e costuma ver os filhos quando viaja a São Paulo para a São Silvestre —tem 13 crias, mas está insatisfeito: procura uma namorada (algo) mais jovem, pois prometeu ao pai dar-lhe 15 netos.

Sobre os homens de branco, apesar de dizer que “Jesus Cristo é meu médico”, de quando em quando pede a esses profissionais que atestem sua boa condição física, cardíaca e arterial. Para saber mais, conhecer, por exemplo, a dieta heterodoxa do homem, veja o minidoc “Na Trilha da Vida”, da produtora Tupi Filmes.

Seu Francisco não está sozinho. Há outros 90+ que participam de provas de rua. A pedido da coluna, a Ticket Sports, que comercializa ingressos para grande parte desses eventos no Brasil, revelou que em 2023 teve 69 nonagenários diferentes inscritos para corridas, em 2024, 134, e em 2025, 148. A “geração silenciosa” (80+) representa 0,12% dos cadastrados da Ticket.

Para Daniel Krutman, CEO da empresa, trata-se do público de corredores que gera “a melhor propaganda”. “Longevidade é um tema especial para a corrida e essa faixa etária viraliza, dá os melhores depoimentos.”

Diante de um maverick como Francisco, os exemplos daqueles 60+ e 70+ que são o benchmarking de gerações e gerações de amadores, e a quem este colunista também reverencia, tornam-se secundários.

Mas faça a seguinte pergunta aos mineiros Nilson Lima (432 maras e ultras, 73 anos) e Anamélia Tannus (204 maras, 66 anos), ou ao pernambucano Lula Holanda (cerca de 150 provas longas, 73 anos), que deu início em 1º de janeiro de 2022 ao projeto autoexplicativo Correndo Todos os Dias, até aqui quase 1.700 dias consecutivos de cascalhos de distâncias variáveis, de curtinhas de 4 km a maratonas em subida:

O que será da vida de vocês caso não possam nunca mais correr?

Não, deixa quieto.


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