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Folha foi pioneira no uso de estatísticas no futebol – 04/06/2026 – Esporte

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Em meados de 1985, a implantação do Projeto Folha fazia do jornal um ambiente de ebulição. Com Otavio Frias Filho à frente da Redação, a Folha adotava novos procedimentos, que buscavam tornar o jornal mais objetivo, conciso e plural, entre outras metas.

Durante uma reunião, Carlos Eduardo Lins da Silva, então secretário de Redação, lançou uma provocação ao sociólogo Antonio Manuel Teixeira Mendes, o primeiro diretor do Datafolha, instituto de pesquisas que havia sido criado dois anos antes. Como os norte-americanos fazem com basquete, beisebol e outros esportes, a gente não consegue extrair as estatísticas do futebol?, questionou o jornalista.

Teixeira Mendes aceitou o desafio. Determinou que uma equipe do Datafolha –pelo menos cinco pessoas nesse momento inicial, ele lembra– começaria a ser treinada para contabilizar os fundamentos não apenas de cada time durante uma partida, mas de cada jogador. Os pesquisadores registrariam o número de chutes e cabeceios a gol, passes, cruzamentos, dribles, faltas e outros tantos quesitos.

Depois de alguns testes, chegou a hora de levar as estatísticas para as páginas do jornal. A estreia aconteceu nos dois jogos da final do Campeonato Paulista de 1985, o duelo entre São Paulo e Portuguesa, marcados para os dias 15 e 22 de dezembro.

Na edição de 16 de dezembro, os números surgiram em um quadro discreto na última página do caderno de Esporte (veja abaixo). Entre os dados, cabeçadas a gol e desarmes, divididos apenas por time.

Na edição de 23 de dezembro, que ressaltava o título conquistado pelo São Paulo, os dados apareceram com mais destaque e detalhamento. Dois quadros amplos exibiam os desempenhos dos times e dos seus jogadores. Os leitores souberam, por exemplo, que o ponta-esquerda Sidney havia sido o maior driblador da equipe campeã, com oito fintas ao longo da partida.

Naquele momento, a Folha se tornava pioneira na imprensa brasileira ao levar as análises estatísticas para o jornalismo dedicado ao futebol. Até então, o levantamento de dados, feito com rigor metodológico, não entrava em campo para explicar o desempenho de um time ou de um jogador.

“Foi revolucionário porque ninguém fazia isso no Brasil”, afirma Teixeira Mendes. “O jornal mostrava que era possível ter mais objetividade nessa área.”

Logo vieram as reações negativas de jornalistas de outros veículos e também de integrantes da Redação da Barão de Limeira. “Achavam que o futebol estava ligado apenas à paixão e à opinião, não era algo que pudesse ser quantificado”, recorda-se Lins da Silva. Ele conta que superou as resistências internas ao lado de nomes como o então secretário-assistente de Redação, Luiz Caversan; o editor de Esportes, Marcelo Fagá, que morreu em 2003; e o jornalista Flávio Gomes.

Seis meses depois dessa final do Paulista, começou a Copa do Mundo do México. A edição de 2 junho de 1986, com a cobertura do primeiro jogo da seleção, demonstrava que o jornal havia, de fato, mudado sua maneira de acompanhar o esporte.

O espírito independente e provocativo, preconizado pelo Projeto Folha, já estava claro na manchete: “Brasil vence Espanha com auxílio do juiz”. Enviados a Guadalajara, os repórteres Carlos Brickmann e Ricardo Kotscho escreveram que a seleção do técnico Telê Santana havia acordado “depois que os espanhóis colocaram uma bola no gol do Brasil –que o juiz Christopher Bambridge não deu”.

“O jornal recebeu uma inundação de cartas de reclamação”, lembra Lins da Silva sobre as manifestações de leitores que apontavam falta de patriotismo da Folha.

Naquela edição, havia ainda uma variedade de abordagens estatísticas sobre as duas seleções. Um quadro destrinchava o aproveitamento de cada atleta em 14 itens e, em um diagrama, setas exibiam os movimentos mais frequentes de ataque das equipes.

A Folha também publicava o Ranking da Copa 86 – Primeira Fase, que mostrava as possibilidades de cada seleção passar para a fase seguinte de acordo com o índice de produtividade da equipe nas partidas anteriores.

O que vinha a ser esse índice? Outra das novidades apresentadas pelo jornal naquele ano, era um indicador obtido por meio de uma fórmula. Somavam-se os ataques de um time, os erros do seu adversário e as faltas recebidas. Esse total era dividido pela soma de erros desse time e as faltas cometidas por ele.

O método havia sido desenvolvido no início dos anos 1980 por Luis Eduardo Salvucci Rodrigues, então estudante de psicologia da USP de Ribeirão Preto, em parceria com seu professor Marco Antonio Figueiredo de Castro. A experiência de Rodrigues como estagiário de psicologia do Botafogo do interior paulista tinha contribuído para que chegassem ao modelo final.

“Inicialmente, pensamos nas categorias que poderíamos analisar durante os jogos para ter um gráfico de desempenho da equipe. A partir daí, foram meses de estudo”, conta Rodrigues quatro décadas depois. Detalhado em artigo publicado nos Arquivos Brasileiros de Psicologia Aplicada em 1982, o método foi apresentado ao jornal quatro anos depois e aprovado pelo instituto de pesquisa.

Obter essas informações para compor o índice exigia rapidez e precisão de uma equipe de dez pesquisadores do Datafolha em ação durante os 90 minutos –tinham sido treinados por Rodrigues. Em seguida, esses dados ganhavam forma de texto e gráfico pelas mãos de jornalistas das editorias de Esporte e de Arte. Foi assim em todos os 52 jogos daquele Mundial.

A utilização bem-sucedida de estatísticas pelo jornal nessa Copa foi insuficiente para que o recurso se tornasse amplamente aceito por jornalistas.

Naquela época, todos os jogos de um Mundial eram televisionados, o que não acontecia com as partidas dos campeonatos Brasileiro e Paulista. Nas disputas sem transmissão, os pesquisadores do Datafolha precisavam ir aos estádios para anotar os dados, o que nem sempre era uma atividade trivial.

Na virada dos anos 1980 para a década de 1990, ficou evidente a insatisfação da Aceesp (Associação dos Cronistas Esportivos do Estado de São Paulo), responsável por fornecer as credenciais que permitem acesso da imprensa às áreas específicas de um estádio. “Uma parte dos jornalistas da Aceesp fez lobby para que não tivéssemos as credenciais. Então, a gente comprava os ingressos e ia trabalhar no meio da torcida”, lembra Fábio Tura, que foi coordenador de esportes do Datafolha de 1991 a 2015.

O veto teve vida curta. Com o passar dos anos, a análise estatística passou a ser reconhecida por emissoras de TV e rádio e mesmo por outros jornais. O Datafolha chegou a ser contratado pela Federação Paulista de Futebol (FPF) e por times como Palmeiras e São Paulo para fornecer informações detalhadas sobre jogos e atletas –mais tarde, entidades e grandes clubes criaram seus próprios núcleos de dados.

Esse trabalho do Datafolha resultou na formação de um amplo banco de dados, fundamental, por exemplo, no trabalho de pesquisas para livros como “A História do Campeonato Paulista” (1997), dos jornalistas Valmir Storti e André Fontenelle.

FolhaStats

Para esta Copa do Mundo, o jornal lançou o FolhaStats, que reúne dados sobre jogadores e seleções, leituras táticas e outros temas.

O serviço contará com um grupo de WhatsApp aberto (para participar, clique aqui e inscreva-se), em que leitores receberão cards estatísticos e textos de colunistas sobre o torneio. Até o dia 11 de junho, quando a Copa começa, FolhaStats vai se concentrar na preparação das equipes e nas características dos atletas chamados.

Com o início do Mundial, passará a trazer também estatísticas completas de cada um dos 104 jogos, antes e depois das partidas. O assinante terá acesso a serviços criados especialmente pelo DeltaFolha, editoria do jornal especializada em análise de dados.



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