Luiz Carlos começou no jogo na década de 1980, com as máquinas de videopôquer. Ainda quando o mundo não era digital.
“Saía do jogo 4, 5 horas da manhã, socando o painel do meu carro, me machucando, chorando, prometendo que nunca mais voltaria, e no outro dia eu estava lá, jogando novamente”.
A dependência de Luiz Carlos é a mesma de quem aposta online como Rogério, Rodrigo, Carla e Gustavo.
Eu jogava quando meus filhos estavam comigo. Eu perdi um relacionamento, uma esposa, por conta de jogo é difícil perceber que precisamos de ajuda. Acontece geralmente quando já estamos no fundo do poço.
Não entende que aquilo é uma doença. Você acha que, ah, eu jogo, mas eu paro quando eu quero. Mas não é assim. Infelizmente o vício destruiu minha vida. Eu comecei de maneira recreativa, jogando 5, 10, 15, no máximo 50, igual muitas pessoas fazem
Luiz Carlos está sem jogar há 15 anos. Carla e Rodrigo estão longe do vício há mais de um ano, enquanto Rodrigo, há seis meses. A abstinência foi conquistada graças aos Jogadores Anônimos.
No caso de Gustavo, sem jogar há seis meses foi por causa da Plataforma Centralizada de Autoexclusão do gov.br que bloqueia o CPF.
“Não entende que aquilo é uma doença. Você acha que, ah, eu jogo, mas eu paro quando eu quero. Mas não é assim”.
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Carla diz que a família é fundamental na busca por socorro. Ela acredita que há muitos casos em que o gatilho que leva ao jogo está dentro de casa.
“Às vezes não tá feliz no casamento, no trabalho, às vezes tá com algum problema e acaba virando tudo gatilho. Então, quando a gente tem uma família que apoia, que entende o que a gente tá passando, tudo fica mais fácil”.
Para a psicóloga Mariana Kehl, da Sociedade Brasileira de Psicologia, a família tem que agir no momento em que perceber o problema.
“Quando a família percebe esse conjunto – dinheiro, segredo, humor, isolamento – não se trata de esperar para ver. Trata-se de buscar ajuda qualificada e de buscar essa ajuda sem moralização, porque a vergonha é justamente o que mantém esse sofrimento em silêncio”.
O psiquiatra forense Hewdy Lobo destaca a permissividade familiar no controle do tempo de jogo de crianças e adolescentes como um dos fatores que pode levar ao vício. E cita outros.
“Aqueles que alguns familiares já tiverem desenvolvido esse tipo de dependência e especialmente aqueles que já possuem um histórico de adoecimento mental, como por exemplo transtornos ansiosos, depressivos, insônia, anorexia nervosa, bulimia nervosa. Porque é fator de risco para o desenvolvimento de um determinado adoecimento mental ter outro adoecimento não tratado”.
Para a “advogada gamer” Luana Mendes, especialista em direito digital, desportivo e dos games, não é o relógio, mas o comportamento que determina a dependência.
“Se a criança deixa de dormir adequadamente, começa a ter prejuízo escolar, abandona outras atividades, abandona os coleguinhas ou apresenta uma sensível perda de controle, de não conseguir ficar sem o jogo, os responsáveis precisam intervir e, quando necessário, procurar um acompanhamento profissional”.
Apoio gratuito e acolhimento
É importante buscar o psicólogo, o psiquiatra ou os dois. Em alguns casos, é necessário o uso de medicamentos. Para Carla Xavier, muitas vezes é preciso ir além do fundo do poço para entender que é preciso de ajuda.
“Ela só vai se dar conta disso a hora que ela chegar no fundo do poço, cavar mais um pouquinho, e aí ela vai entender que sem a ajuda dos seus iguais, ela não vai conseguir sair dessa situação”.
Longe do vício, Carla voltou a ser quem era antes de conhecer os jogos.
“Hoje eu voltei a ter minha autoconfiança, voltei a ter um trabalho digno, honesto, e a vida só tem me dado surpresas boas”.
No caso de Gustavo, sem jogar há seis meses, foi por causa da Plataforma Centralizada de Autoexclusão do Gov.br, que bloqueia o CPF.
O vício me transformou em outra coisa, em algo que eu não era antes dele, né? Não me orgulho de nada do que eu fiz nessa época, e hoje, graças a Deus, eu consigo, com muita transparência, falar com as pessoas, ajudar elas. Ainda faço acompanhamento, ainda é uma luta diária contra o vício.
O Sistema Único de Saúde (SUS) oferece teleatendimento psicológico acessível pelo portal Meu SUS Digital, além de atendimento presencial em unidades básicas de saúde e nos Centros de Atenção Psicossocial (CAPs).
Você também pode buscar grupos de apoio como o Jogadores Anônimos, em reuniões presenciais ou online.
É só entrar na página, procurar a sala e assistir uma reunião aberta. Existe também uma irmandade paralela, a Jog-Anon, para familiares. E a gente não pode esquecer do Centro de Valorização da Vida (CVV) no número 188.
E o recadinho final para quem está tentando se manter longe das apostas é da Carla Xavier:
“Desejo 24 horas de paz, seriedade e abstinência a todos”.
Créditos
Reportagem: Ana Lúcia Caldas
Edição: Paula de Castro
Produção: Luciene Cruz
Sonoplastia: Egberty Martins
Edição web: Sumaia Villela
