A confiança do empresário do comércio recuou em setembro de 2026 e chegou a 100 pontos, exatamente no patamar que separa as avaliações positivas das negativas. Em agosto, o Índice de Confiança do Empresário do Comércio (Icec) havia marcado 101,3 pontos.
Os resultados foram divulgados pela Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC) na quarta-feira (30). A queda mensal foi de 1,3 ponto. Apesar do recuo, o índice geral ficou 1,7% acima do registrado em setembro de 2025.
A CNC chama atenção para o desempenho do comércio de bens semiduráveis, grupo que inclui roupas, calçados, tecidos e acessórios. Na avaliação da entidade, o setor enfrenta maior concorrência das compras internacionais após a redução a zero do Imposto de Importação sobre determinadas remessas de até US$ 50, medida conhecida como fim da “taxa das blusinhas”.
A pesquisa mede a percepção dos empresários. Ela não demonstra, isoladamente, que a mudança no imposto causou a queda do índice geral; essa relação é uma avaliação apresentada pela CNC.
Vestuário e calçados registram piora
A confiança dos empresários de bens semiduráveis caiu 1,3% em relação a agosto. Na comparação com setembro do ano passado, recuou 1,7%, sendo o único segmento com variação anual negativa entre os recortes destacados pela CNC.
A expectativa sobre a economia entre os empresários desse grupo diminuiu 4,6% no mês. Já o subíndice de expectativas para os comerciantes de roupas e calçados caiu 4% em relação a agosto e 1,4% em 12 meses.
Para a entidade, os números refletem a preocupação com a concorrência de produtos vendidos por plataformas internacionais. A CNC defende maior equilíbrio nas condições tributárias e concorrenciais entre as remessas do exterior e as mercadorias comercializadas por empresas instaladas no Brasil.
Remessas declaradas cresceram 74% em um ano
O aumento das compras internacionais é um dos dados usados pela CNC para contextualizar sua avaliação. Conforme os relatórios da Receita Federal referentes a agosto de 2025 e a agosto de 2026, o número de declarações de importação de remessas registradas passou de 15,2 milhões para 26,5 milhões, alta de aproximadamente 74%.
O valor aduaneiro dessas declarações passou de US$ 293,8 milhões para US$ 526,2 milhões, aumento de cerca de 79% em dólares. Em reais, os valores informados pela Receita foram de R$ 1,60 bilhão e R$ 2,71 bilhões, respectivamente. Esses totais abrangem as declarações registradas no período e não devem ser confundidos com o número de remessas efetivamente recebidas em cada mês.
O crescimento das remessas ajuda a dimensionar a concorrência enfrentada pelo varejo, mas os dados, por si sós, não mostram quantas vendas deixaram de ocorrer nas lojas brasileiras.
O que mudou na chamada “taxa das blusinhas”?
A expressão se refere à alíquota federal de 20% do Imposto de Importação que incidia sobre compras internacionais de até US$ 50 realizadas por pessoas físicas nas condições do Programa Remessa Conforme. A alíquota foi reduzida a zero a partir de maio de 2026. Posteriormente, a Lei nº 15.502, de 10 de setembro de 2026 incorporou à legislação a possibilidade de manter a alíquota zero nessa faixa.
Isso não eliminou todos os tributos dessas compras. A Receita Federal esclarece que o ICMS continua sendo cobrado. A alíquota zero do imposto federal também depende das condições aplicáveis às compras feitas por pessoas físicas em plataformas certificadas no Remessa Conforme; aquisições fora do programa seguem regras diferentes.
Outros setores mostram resultado diferente
A cautela no vestuário não se repetiu da mesma forma em todo o comércio. Segundo a CNC, os bens duráveis, como eletrônicos e eletrodomésticos, tiveram o maior avanço anual de confiança entre os segmentos destacados, de 3,9%.
Embora o índice de expectativas do comércio tenha caído 1,9% em setembro, 59,5% dos empresários consultados ainda projetam melhora da economia nos próximos meses. As intenções de contratação também ficaram 4,2% acima das registradas um ano antes.
O Icec é uma pesquisa mensal com aproximadamente 6 mil empresas varejistas das capitais brasileiras. O levantamento reúne avaliações das condições atuais, expectativas e intenções de investimento. Para empresas de vestuário e calçados, os resultados indicam a importância de acompanhar vendas, margens e giro de estoque por categoria de produto nos próximos meses, sem tratar a variação da confiança como uma medida direta de perda de faturamento.
Leia mais: Taxa das blusinhas: compras de até US$ 50 ficam isentas do imposto federal.
