Brasil Hoje

como afeta as finanças pessoais


Em ano eleitoral, como estamos vivendo, a incerteza não fica restrita às pesquisas de intenção de voto ou às discussões sobre os rumos do país. Ela também pode chegar a um lugar muito mais íntimo: a nossa conta bancária.

Para o consumidor, períodos de maior incerteza econômica e política podem alterar o momento de uma compra, a disposição para assumir uma dívida, a decisão de guardar dinheiro ou até mesmo a vontade de trocar de banco ou buscar uma aplicação financeira diferente.

O desafio está em separar percepção de realidade. Afinal, o brasileiro de 2026 não está simplesmente colocando a vida financeira em pausa à espera das urnas. Os dados mostram um comportamento mais complexo: enquanto parte das pessoas preserva recursos e adia decisões, outra parcela continua recorrendo ao crédito e ampliando seus investimentos.

O ambiente econômico ajuda a explicar essa combinação. Segundo o Banco Central, o endividamento das famílias chegou a 49,8% da renda acumulada em 12 meses em março de 2026, enquanto o comprometimento da renda com o pagamento de dívidas ficou em 29,3%. Os dois indicadores permanecem em patamares elevados. Ao mesmo tempo, a procura por crédito continua crescendo. Dados da Serasa Experian mostram que a demanda dos consumidores por crédito aumentou 17,1% no acumulado de 12 meses até julho de 2026. Na comparação entre julho de 2026 e julho de 2025, a alta foi de 16,9%.

Ou seja: a cautela não significa necessariamente deixar de buscar dinheiro. Para muitas famílias, o crédito continua sendo uma ferramenta para acomodar despesas e necessidades que não podem esperar. Mas, se de um lado existe demanda por crédito, de outro há sinais de uma população mais preocupada em construir alguma proteção financeira.

A edição 2026 do Raio X do Investidor Brasileiro, da Anbima, mostra que 33% dos brasileiros conseguiram poupar em 2025. Entre eles, porém, apenas 12% transformaram essa poupança em investimentos. Esse dado revela uma diferença importante entre ter dinheiro guardado e investir dinheiro.

Portanto, em um cenário de incerteza, manter recursos disponíveis pode ter um valor psicológico e financeiro próprio. A reserva funciona como uma espécie de margem de segurança para quem não sabe exatamente como estarão sua renda, seus gastos ou as condições de crédito nos próximos meses.

E essa busca por segurança não significa necessariamente abandonar os investimentos. O volume aplicado por pessoas físicas chegou a R$9,1 trilhões em junho de 2026, alta de 6,4% em relação a dezembro de 20252023, segundo a Anbima. No varejo tradicional, os investimentos em títulos e valores mobiliários cresceram 7,3% no primeiro semestre. Os títulos públicos, especificamente, tiveram alta de 27,4% entre investidores desse segmento.

O comportamento parece contraditório apenas à primeira vista. Em ambientes de maior incerteza, o consumidor pode simultaneamente reduzir gastos discricionários, preservar liquidez e buscar aplicações consideradas mais previsíveis.

Há um sinal interessante vindo do ambiente empresarial que ajuda a entender esse comportamento. Uma pesquisa da Resenha Company, realizada entre 10 e 17 de agosto de 2026 com 100 empresários e executivos C-level, mostrou que 87,5% já percebiam algum impacto das eleições no planejamento de seus negócios. Para 39,1%, clientes ou fornecedores estavam postergando decisões; 28,1% disseram que suas próprias empresas aguardavam o resultado das urnas antes de tomar determinadas decisões.

Embora o levantamento seja empresarial e não represente diretamente os consumidores finais, ele ajuda a ilustrar um fenômeno que pode aparecer também nas famílias: não necessariamente desistir de uma decisão, mas mudar o momento em que ela será tomada. Ou, dependendo da necessidade, o consumidor pode fazer exatamente o contrário e antecipar uma decisão para evitar uma possível mudança nas condições econômicas.

Por isso, talvez o principal efeito de um ano eleitoral sobre as finanças pessoais não seja fazer o brasileiro gastar mais ou gastar menos, é fazer com que ele pense mais sobre o timing das decisões.

Existe, porém, um limite para a cautela: a vida financeira não pode ser completamente adiada por conta de sazonalidades que existem. Contas básicas, alimentação, aluguel, escola, transporte e despesas inesperadas continuam fazendo parte do orçamento independentemente do calendário eleitoral.

Os dados da nossa base também ajudam a entender como essa necessidade de previsibilidade se traduz na prática. O Estudo de Principalidade Financeira da consultoria mostra que 65% dos entrevistados priorizam o pagamento das contas fixas antes de realizar outros gastos, enquanto 60% planejam as despesas antes mesmo do início do mês. Os resultados sugerem que, para uma parcela expressiva dos consumidores, organizar o orçamento e garantir o cumprimento dos compromissos recorrentes são prioridades, independentemente das incertezas que possam marcar o cenário econômico e político.

É nesse espaço entre a macroeconomia e o orçamento doméstico que as decisões financeiras realmente acontecem. O consumidor pode acompanhar a eleição, observar as notícias sobre juros, inflação, câmbio e contas públicas, mas, no fim do mês, precisa decidir se paga à vista ou parcela, se mantém dinheiro parado ou investe, se troca de banco ou permanece onde está e se assume ou não uma nova dívida.

Outro dado ajuda a colocar essa discussão em perspectiva. A mesma pesquisa citada acima, da Anbima, mostra que 36% da população brasileira já possui algum investimento financeiro. Para 2026, mais de 23 milhões de brasileiros declararam intenção de começar a investir. Entre os motivos para investir, busca por retorno e segurança aparecem entre os principais.

Isso indica que o comportamento financeiro brasileiro vem se tornando mais sofisticado e o consumidor não está necessariamente escolhendo entre “gastar” e “guardar”. Ele está aprendendo a distribuir decisões diferentes conforme seus objetivos, sua renda e seu nível de segurança financeira.

Em um ano eleitoral, essa capacidade de separar decisões pode ganhar ainda mais importância e acredito que o melhor antídoto para a incerteza não é tentar prever o resultado das urnas ou adivinhar qual será o próximo movimento do mercado. É entender o próprio orçamento, conhecer o custo do crédito, construir uma reserva compatível com a realidade de cada família e tomar decisões financeiras baseadas em objetivos, e não apenas no ruído do momento.

Porque, entre a urna e o boleto, existe uma coisa que não muda: a necessidade de tomar decisões sobre dinheiro todos os dias. E talvez essa seja a principal característica do consumidor financeiro de 2026: ele pode até esperar para decidir. Mas está cada vez mais consciente de que esperar também é uma decisão financeira.

Walney Barbosa é Diretor de Insights Delivery da Okiar, consultoria especializada em Consumer Insights





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