Parte da história recente do Brasil morreu nesta terça-feira (15) junto com Maria Amélia Teles, a Amelinha, aos 81 anos.
Em março de 2024, em uma longa entrevista para o podcast Golpe de 1964: Perdas e Danos, da Radioagência Nacional, ela se apresentou assim:
“Todo mundo me conhece como Amelinha Telles. Eu sou feminista e militante dos direitos humanos, em especial da Comissão de Familiares Mortos e Desaparecidos Políticos. E sou escritora, sou… O que mais? Eu estou aí. Todas essas lutas contra a opressão e a exploração, eu faço parte”.
Lutas que ela começou a encarar bem jovem. Amelinha e o marido, Cesar Augusto Teles, trabalhavam no jornal “A Classe Operária”, do Partido Comunista do Brasil, e denunciavam os abusos da ditadura militar no Brasil.
Os dois foram presos em 1972 pelo DOI-CODI, o principal aparato de repressão e morte da ditadura. Foram torturados, com requintes de crueldade. Ainda bem crianças, os filhos do casal, Edson e Janaína Teles, assistiram os pais sendo torturados.
Amelinha sobreviveu e levantou a bandeira pelo direito à memória e à justiça.
Integrou a Comissão de Familiares de Mortos e Desaparecidos Políticos, assessorou a Comissão da Verdade do Estado de São Paulo “Rubens Paiva”, conseguiu a primeira decisão judicial do país que declarou um militar como torturador, Carlos Alberto Brilhante Ustra. Foi protagonista na criação do CAAF, o Centro de Antropologia e Arqueologia Forense da Unifesp, que desde 2014 trabalha na identificação das ossadas localizadas na vala clandestina do Cemitério de Perus, em São Paulo. E seguiu na ativa como pesquisadora investigando o envolvimento de empresas na violação de direitos durante a ditadura, com foco nas violações sofridas pelas mulheres.
Na entrevista para o Perdas e Danos ela explicou o que motivava a pesquisa.
“Nós temos que enfrentar o passado, sim, porque o presente está sendo ameaçado o tempo todo com os fantasmas do passado. Essa tentativa de golpe de 8 de janeiro, gente, é o passado ali. Portanto, não acabou não. Isso é a continuação. Não adianta, não tem que virar a página, não dá para virar a página. A página tem que ser lida e compreendida, depois é que você vira, entendeu?”
Feminista, Amelinha participou do Jornal Brasil Mulher, na década de 1970, dirigiu a União de Mulheres de São Paulo, coordenou o Projeto Promotoras Legais Populares, que ajudava a capacitar mulheres como lideranças comunitárias, ensinando noções básicas de Direito, direitos humanos e no sistema de justiça, e teve papel importante na efetivação da Lei Maria da Penha como advogada e formadora de Promotoras Legais Populares.
Seu livro mais recente “Contos da Cela Três”, recupera as memórias do período em que esteve presa. Também é autora dos livros “Breve História do Feminismo no Brasil” e “O Que São os Direitos Humanos das Mulheres?”.
