Esporte

O futebol está doente – 02/09/2026 – Marcelo Bechler


Em 19 de agosto, o Palmeiras venceu o Cerro Porteño e Abel Ferreira disse que “o futebol está doente”, fazendo uma reflexão importante sobre o ambiente tóxico e agressivo, que só reconhece os vencedores e massacra quem perde.

Onze dias depois, o treinador chutou e quebrou um microfone por irritar-se com a arbitragem em Mirassol.

No mesmo dia, um garoto de oito anos foi hostilizado em São Paulo por ser corintiano e ganhar uma camisa de Neymar.

A sucessão dos acontecimentos comprova que o técnico português estava certo sobre a doença que envolve o futebol. Imprensa, torcida, jogadores, técnicos. Todos têm sua parcela em um ecossistema que reflete, via futebol, o que é a sociedade.

Vou deixar o episódio camisa do Neymar-torcida do Corinthians por último.

Abel abriu bem o debate sobre como está difícil lidar com futebol. Os torcedores são incapazes de conviver com a frustração. Em um mundo que vai se fechando em bolhas de gente que não pensa diferente e não convive com o contrário, o esporte, que não te garante sucesso, traz uma decepção descontrolada a cada jogo que não termina com a vitória.

Hoje as pessoas estão acostumadas a ver apenas o que querem, na hora em que querem. Com redes sociais, cada um se encontra com microecossistemas que pensam da mesma forma. A ausência do antagonismo digital nos deixa intolerantes à adversidade do mundo real. E, nessa, nem Abel escapa. Quando discorda da decisão arbitral, desconta sua fúria de forma truculenta em um microfone alheio. Do mais fanático torcedor ao treinador mais longevo no Brasil, ninguém está preparado para ser contrariado.

Antes de chegar ao caso de Itaquera, um parênteses pessoal. Trabalho há 20 anos como jornalista esportivo. O início de minha carreira coincide com a chegada das interações em massa na internet: Twitter, Facebook, Instagram e Youtube. Em todo este tempo, várias vezes vi e fui vítima de ondas de ódio por ter uma ou outra opinião divergente.

Nas últimas semanas, no entanto, o efeito parece multiplicado. Os palpites de quem avança na Copa Sulamericana são suficientes para comentários pedindo demissão ou questionando valores humanos do palpiteiro. Algo que deveria ser banal se torna uma ofensa pessoal e uma chance imperdível de destilar ódio gratuito e desproporcional.

Pois bem. Domingo (30), um garoto de oito anos, corintiano, pediu a camisa de Neymar e foi atendido depois do jogo. Foi o suficiente para que ele e sua família precisassem de escolta para deixar o estádio, enquanto raivosos espumavam e atiravam objetos em sua direção. Um garoto de oito anos, que nem aprendeu ainda o que é odiar alguém, que não está na bolha das opiniões contrárias das redes sociais.

Simplesmente um menino que adora um jogador rival.

Quem odeia não escolhe um jornalista de 40 anos com uma opinião impopular ou uma criança indefesa. As pessoas perderam o autocontrole e a vergonha de serem violentas. Tampouco importa o alvo e as consequências da agressão. O mundo e o futebol estão doentes de uma enfermidade soberba e mesquinha: o individualismo coletivo. Muitas pessoas juntas, se sentindo o centro de razão do universo e precisando exterminar quem vê o mundo de forma diferente.

A cena de domingo ainda não saiu da minha cabeça.

Nos debates esportivos ela foi rapidamente substituída pela nova polêmica da vez. Não temos tempo para debater o quanto foi triste o que aconteceu na torcida do Corinthians. Parece-me que a única saída para frearmos esse ciclo negativo é perder.

Quanto mais perdermos jogos, discussões, argumentos, mais chances teremos de lidar melhor com algo tão natural como estar certo: estar errado.


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