quarta-feira 10, junho, 2026 - 12:32

Brasília

Pós-verdade: fenômeno contribui para disseminação da desinformação

A pós-verdade descreve situações em que os fatos importam menos do que aquilo que as p

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A pós-verdade descreve situações em que os fatos importam menos do que aquilo que as pessoas escolhem acreditar. O termo, que já existe desde 1990, ganhou destaque na primeira eleição de Trump nos Estados Unidos em 2016, sendo eleita como a palavra do ano pelo dicionário britânico Oxford. Desde então, passou a ser incluída nos debates sobre fake news e ao impacto das redes sociais na formação da opinião pública.

O cientista social Leonardo Nascimento, coordenador do Laboratório de Humanidades Digitais da Universidade Federal da Bahia, explica o fenômeno: 

“Isso já existia antes da pandemia e, com a pandemia, isso ficou mais exacerbado. É cada vez mais a ideia de que as pessoas conseguem ter ou acessar verdades que ninguém mais consegue. Ou que elas conseguem acessar verdades ou elementos do mundo real que, supostamente, alguém quer esconder: seja a mídia, seja o mercado, seja a ciência, né? E as pessoas realmente são imbuídas ou tomadas por essa ideia, e elas ficam nessas, vamos dizer assim, nessa ficção com a realidade, achando que existe um plano por trás das coisas. E aí, tanto essa relação da pós-verdade tem um elemento conspiratório muito grande — a crença de que existe algo por trás, maior, e que as pessoas escondem, de supostamente esconderem de você, e que você seria capaz de descobrir e atuar sobre ela”, aponta.

Junto à pós-verdade, alguns pesquisadores apontam a criação de uma nova vertente: a pós-mentira, que é a tendência de continuar propagando informações falsas, sem se importar com a veracidade, mesmo se elas já tiverem sido desmentidas. Segundo o cientista social, essas situações têm se tornado cada vez mais frequentes:

“Esses conceitos, não saberia dizer sinceramente se eles ajudam ou mais dificultam a compreensão desse fenômeno. Todo esse movimento está atrelado a mudanças na forma de comunicação, de relação de comunicação que nós temos, né? As tecnologias digitais, elas modificam a maneira como nós nos conectamos uns aos outros e como nós buscamos e acessamos informação. Então, isso altera um pouco a balança da correlação de forças em relação ao que é verdade, ao que é conhecimento, em quem nós podemos acreditar quando temos alguma dúvida em relação a seja lá o que for. Essa é a questão que mais nos aflige hoje em dia, tá? Os cientistas estão sendo desacreditados, a ciência tá sendo desacreditada, o campo político tá sendo desacreditado, o campo jornalístico também, e assim sucessivamente. Então, o que você tem é o resultado de coisas, de um certo ponto de vista científico, né, absurdas, né, como a gente tá vendo”, aponta.

A saída para Leonardo Nascimento é repensar o consumo de notícias e de redes sociais:

“Muito provavelmente esse processo que a gente tá tendo de enfraquecimento e descredibilização dessas instituições — né, mídia, ciência, política —, isso tende a aumentar. E vai ser preciso que a própria sociedade desenvolva mecanismos de proteção dessas instâncias e de criação de outras instâncias que legislem sobre a verdade e que protejam um certo acordo com a realidade, para que a gente não se perca nesse emaranhado que a velocidade das mídias nos trazem, entendeu? O que é que eu tô querendo dizer com isso, né? Que a gente precisa urgentemente pensar as redes sociais, as plataformas, como um artefato cultural que traz muita coisa boa, muita coisa interessante pra gente, mas muitos problemas e uma necessidade maior de escrutínio das pessoas, entendeu? Isso parece ser óbvio, mas assim, do meu ponto de vista, tanto a classe política quanto os cientistas ainda não têm uma compreensão mais aprofundada do que é que essas ferramentas podem fazer e como a gente tem que lidar com elas”, aponta.




Fonte GDF

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