Esporte

Lamine e por que gostamos de futebol – 14/10/2026 – Marcelo Bechler


Na terça-feira (13), o Barcelona deu mais uma exibição de futebol na temporada. Venceu o Galatasaray na Turquia e chegou a dez vitórias consecutivas, com 43 gols marcados. Mesmo sem Raphinha, artilheiro do time, foi capaz de marcar sete vezes nas duas últimas partidas. E quem brilhou, uma vez mais, foi Lamine Yamal.

O jovem de 19 anos deu duas assistências e poderia ter oferecido algumas mais se seus companheiros estivessem com a mira mais apurada. Em um dos gols, fez um drible desconcertante, deixando Anthony Gordon de frente para o gol.

São dez jogos na temporada e o jovem já soma oito gols e nove assistências. Citei aqui as estatísticas, porque quero tirá-las da frente o quanto antes para falar de futebol. Parece-me que recentemente temos estado muito despistados do que acontece em campo e muito atentos às planilhas de números e estatísticas. Não comparamos quem jogou melhor ou pior, comparamos quem teve melhores ou piores parâmetros.

A jogada do gol que rodou o mundo poderia ter terminado sem render a Lamine uma estatística se o chute de Gordon gerasse um rebote e alguém completasse para o fundo do gol vazio depois. E logo viria alguém dizer que o atacante jogou bem, mas teve participação discreta no resultado. Minutos antes, ele já havia vencido seu marcador com um passe de letra e uma tabela, seguido de um cruzamento de três dedos que foi desperdiçado por seu companheiro. Isso também não entrou para a soma desses dados que parecem separar o bom do ruim. Gol ou assistências, foi bem. Não teve números concretos, não apareceu para o jogo.

O futebol é um esporte inventado para divertir as pessoas. Ele não existe para ser visto só pelos números, mas pelas sensações que causa. E Lamine Yamal é hoje um desses jogadores tocados por uma varinha mágica que nos ajuda a lembrar por que gostamos desse jogo desde quando éramos crianças. Ninguém gosta de futebol pela polêmica Bap vs Pedrinho sobre onde jogará o Vasco. Não há quem veja um jogo de olhos vidrados em uma reação intempestiva de Abel Ferreira ou esperando que o goleiro do time que está vencendo caia e perca alguns minutos para esfriar a reação do adversário.

Gostamos de futebol porque tem alguém que inventará um drible, achará um passe que nós não vimos do sofá, vencerá um jogo com um gol no último minuto. De tempos em tempos, chega um jogador que faz algo diferente dos outros, parece jogar em outra velocidade e dançar uma música diferente do resto. Quando reduzimos esses jogadores aos números frios, não entendemos nada.

Não que Lamine não seja um jogador objetivo. Tem apenas 19 anos, mas suas cifras melhoram a cada ano. Na temporada passada, Lamine fez 24 gols e deu 19 assistências pelo Barcelona. Teve 43 participações diretas em gols de seu time. Mbappé fez 42 e fez seis assistências para gols pelo Real Madrid, chegando a 48 participações. Mbappé foi melhor que Lamine? Os números dizem tudo ou escondem algo importante?

Não quero menosprezar a importância da objetividade, mas estamos viciados em ver futebol sem enxergar futebol. Parece que 90 minutos é tempo demais para ver um jogo e é mais fácil buscar a estatística para determinar quem jogou bem e quem jogou mal.

O futebol precisa divertir. Não importa se com mais ou menos números.


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