Bélgica e Egito fazem seu primeiro jogo nesta Copa do Mundo às 16h desta segunda-feira (15), em Seattle, mas o atual contexto geopolítico leva as atenções para a segunda partida do grupo G.
Em Los Angeles, a seleção do Irã entra em campo à noite (22h) para enfrentar a Nova Zelândia enquanto o país segue em guerra com um dos anfitriões —situação inédita em Mundiais.
A promessa de Donald Trump de que um acordo de paz entre Estados Unidos e Irã seria assinado neste domingo (14), data em que completou 80 anos, não se concretizou. Teerã questionou as intenções do governo americano após Israel bombardear os subúrbios de Beirute, capital do Líbano.
Mas o fim da guerra parece de fato estar próximo. Segundo o Paquistão, os governos americano e iraniano chegaram a um acordo para encerrar a guerra e devem assiná-lo na sexta-feira (19).
A 12 mil quilômetros de distância dos ataques, os iranianos finalmente entraram nos EUA na noite de domingo (14).
Inicialmente, eles ficariam instalados em Tucson, no estado do Arizona, mas a delegação decidiu firmar sua base em Tijuana, no México, porque cerca de 15 integrantes do grupo, entre comissão técnica e dirigentes, tiveram seus vistos americanos negados.
Um deles foi o presidente da Federação de Futebol do Irã (FFIRI), Mehdi Taj, que serviu na Guarda Revolucionária, considerada por Washington uma organização terrorista.
Com os bombardeios de EUA e Israel em 28 de fevereiro, a participação do Irã na Copa foi dada como incerta até poucas semanas antes do início do torneio.
Em março, dirigentes iranianos pediram que as partidas da equipe fossem realocadas para o México, o que foi prontamente negado pela Fifa (Federação Internacional de Futebol).
Os três confrontos da fase de grupos estavam marcados para acontecer em território americano, e assim continuam —contra a Bélgica o palco também será o estádio SoFi, em Los Angeles, e contra o Egito, o Lumen Field, em Seattle.
No final de abril, o presidente da Fifa, Gianni Infantino, confirmou a presença da seleção iraniana no Mundial. Desde que pousou no México, no domingo (7), a equipe tem sido escoltada por soldados da Guarda Nacional mexicana.
A FFIRI acusa os EUA de terem revogado ingressos direcionados à torcida por meio da federação.
“Privar os torcedores iranianos do acesso à sua cota legítima e oficial de ingressos é uma ação contrária ao espírito que rege as competições internacionais e ao princípio de igualdade entre os países participantes”, afirmou a entidade em nota.
Clima de Copa?
O atacante Mehdi Taremi, um dos destaques do time, jogará sua terceira Copa em um clima diferente.
“Sempre dizem que, ao descer do avião e entrar no país-sede, você sente uma atmosfera de acolhimento e união. Talvez seja apenas impressão minha, mas não estou sentindo isso agora”, disse, em entrevista ao jornal italiano La Gazzetta dello Sport.
Segundo ele, que defende o Olympiakos, da Grécia, esporte e política não devem se misturar.
“A Copa do Mundo pode impulsionar um mundo livre de conflitos, não apenas para o Irã, mas para todos. Eu só acrescentaria que qualquer país que aceite sediar uma Copa do Mundo deve seguir as regulamentações da Fifa e cumprir suas responsabilidades como país-sede. É isso que quero dizer quando falo que a política deve ser separada e os princípios do esporte, preservados.”
As divergências políticas, que tiveram menor impacto nas Copas de 2014 e 2018, agora voltam a mexer na relação com a torcida.
O motivo passa pelas repressões que geraram centenas de mortes em protestos motivados pela morte da jovem Mahsa Amini, em 2022 e 2023, e em atos contrários ao regime no final de 2025 e início deste ano.
Alguns iranianos, muitos dos que moram no exterior, não se sentem conectados à seleção por acreditarem que ela é usada como instrumento pela República Islâmica.
Há inclusive novos protestos previstos para esta segunda-feira, nos arredores do palco da estreia, o SoFi, em LA, onde vive a maior comunidade de iranianos do mundo fora do Irã. Alguns iranianos-americanos já fizeram um protesto no entorno da arena neste domingo (14), pedindo a exclusão do Irã da Copa.
Outro ponto de atenção para a partida de estreia serão os símbolos contrários à República Islâmica, como a antiga bandeira do país (que exibe um leão e um sol no centro).
O ministro de Esportes, Ahmad Donyamali, ameaçou interromper os jogos caso flâmulas e cânticos críticos ao regime sejam identificados nos estádios.
A Fifa diz proibir quaisquer bandeiras “de natureza política, ofensiva e/ou discriminatória”.
Dentro de campo
Atravessada por tantas questões políticas, a campanha do Irã nesta Copa representa a sétima tentativa do país de ir além da fase de grupos no torneio. O melhor desempenho foi na edição da Rússia, em 2018, quando somou 4 pontos ao vencer Marrocos, empatar com Portugal e perder para a Espanha.
A classificação para o Mundial na América do Norte foi garantida diretamente pela fase de grupos das Eliminatórias da Ásia, em que somou 23 pontos em dez partidas e terminou líder do Grupo A, que também tinha Qatar, Uzbequistão, Emirados Árabes Unidos, Coreia do Norte e Quirguistão.
Na estreia em Los Angeles, os iranianos são os favoritos. Vigésima colocada no ranking da Fifa, a equipe enfrenta a Nova Zelândia, que busca sua primeira vitória no torneio e é a seleção participante com pior ranking entre todas (85º lugar).
Os neozelandeses também terminaram em primeiro na fase de grupos das Eliminatórias da Oceania, mas precisaram ainda vencer Fiji e Nova Caledônia para carimbar a vaga na Copa pela terceira vez, 16 anos depois da última participação.
O destaque do time é o grandalhão e corpulento atacante Chris Wood, de 34 anos e 1,91 m, que defende o Nottingham Forest, da Inglaterra.
Bélgica e Egito
No outro confronto do grupo, marcado para as 16h, Bélgica e Egito são liderados por dois ex-colegas de Premier League.
Do lado egípcio, Mohamed Salah, 33, ídolo do Liverpool e atualmente sem clube, tenta levar a equipe à recém-criada fase dos 32, na quarta participação do país em Copas.
A primeira foi em 1934, na Itália, quando perdeu para a Hungria na estreia —à época a competição tinha outro formato.
Para os belgas, as esperanças depositam-se em Jérémy Doku, 24, ponta-esquerda que atua pelo Manchester City desde 2023. Na última temporada, deu mais assistências do que marcou gols (14 ante 8) em 47 partidas.
A seleção tenta repetir a histórica campanha de 2018, quando eliminou o Brasil nas quartas de final, perdeu para a França na semifinal e venceu a Inglaterra por 2 a 0 para ficar com o terceiro lugar.

