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Europa despreza Copa de Trump (até a bola rolar) – 12/06/2026 – Esporte

“Estraga-prazeres.” Ainda que seja um esporte em extinção, fazer manchetes

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“Estraga-prazeres.” Ainda que seja um esporte em extinção, fazer manchetes de jornais e capas de revistas é estar atento a sentimentos coletivos. O título da alemã “Der Spiegel”, da última semana, vai direto ao ponto ao falar de Copa do Mundo: mais do que arruinar um prazer global, Donald Trump “está se aproveitando” do evento mais popular do planeta.

Escancarado, o mau humor europeu com o torneio começou a se esvair desde quinta-feira (11), quando o duelo México 2 x 0 África do Sul abriu o torneio. Bola rolando, afinal, é gatilho para alienação, mostra a história. Até a competição engatar, porém, as críticas se empilham no continente que divide com a América do Sul o poderio sobre o futebol mundial.

Houve de tudo na véspera do espetáculo e não apenas na imprensa. Sobre a estreia da Inglaterra, contra a Croácia, o maior problema promete ser o copo de cerveja, tabelado em US$ 17 (R$ 98) nos estádios americanos. Autor da denúncia, o tabloide britânico The Sun ainda constatou que o pint americano (473 ml) é 17% menor que o pint inglês (568 ml).

A recusa americana na concessão de visto a um árbitro somali ganhou forte repercussão política, com protestos de parlamentares no Bundestag, em Berlim. “Um precedente perigoso”, “uma vassalagem da Fifa a um estado agressor no âmbito de um esporte internacional”, opinou um historiador em entrevista ao jornal francês Le Monde.

A absurda quantidade de carbono que será emitida por torcedores e delegações entre as 16 cidades-sedes, tamanho inédito para a competição, há dias vem sendo usada para desmoralizar a “Copa Verde” divulgada pela entidade que rege o futebol mundial.

Trump, por óbvio, provoca boa parte da acidez dos comentários. Em pesquisa divulgada nesta quarta-feira (10), o Conselho Europeu de Relações Exteriores mostra que apenas 11% dos respondentes, em 15 nações do continente, consideram os EUA como um aliado, recorde negativo da pesquisa —eram 16% no ano passado e 22% em novembro de 2024.

Para 25% dos quase 20 mil ouvidos no levantamento, realizado em maio, a América de Trump já pode ser considerada como um adversário.

Dois outros números mostram o nível da ojeriza: para 63% dos franceses, o presidente americano prejudicou as relações entre EUA e Europa, mas tudo voltará ao normal quando ele deixar a Casa Branca; para 32% dos alemães, o estrago já é irreversível.

Contam para o prontuário europeu de Trump as ameaças de invadir a Groenlândia, a falta de empenho por uma solução da guerra na Ucrânia, o desembarque da Otan, o tarifaço.

No universo mundano da Copa, os grandes temas apenas sublinham questões mais práticas, como o custo exorbitante de ingressos, pacotes turísticos e deslocamentos. Os sinais de descontentamento afloram. Jogadores da seleção alemã fizeram uma vaquinha para bancar o transporte por ônibus de cerca de 600 torcedores, encurralados pela incrível tarifa de trem de US$ 150 (R$ 816), antes US$ 12,90, entre Nova Jersey e Nova York.

O noticiário na Europa capricha nas tintas para descrever o “clima de medo” nos EUA, cultivado desde o começo do segundo mandato de Trump: a repressão violenta a imigrantes e visitantes, novas exigências de visto e a exigência de escancarar a vida digital na alfândega.

Presidente da Fifa, Gianni Infantino é cobrado por todas essas questões. Já candidato a um terceiro mandato, o advogado suíço também é acusado de adular Trump antes de preservar o jogo e o espetáculo. De novo, mostra a história, uma relação sem grandes novidades.

Analistas lembram de João Havelange e Jorge Rafael Videla, o general que visitou a seleção do Peru no vestiário momentos antes do jogo crucial contra a Argentina em 1978. Lembram da Fifa passando pano para Vladimir Putin, em 2018, pouco depois de a Rússia ter anexado a Crimeia. E das tantas violações aos direitos humanos que precederam o Mundial do Qatar, há quatro anos, quando parte dos jogadores não se furtou a protestar.

“Como entidade, seria prudente não comentarmos automaticamente cada acontecimento político e cada declaração nestes tempos conturbados”, escreveu em artigo publicado nesta semana Bernd Neuendorf, presidente da Federação Alemã de Futebol, dando o tom, até aqui, desta edição.

A capa da Spiegel mostra o rosto de Trump incrustado na Taça Fifa. Em newsletter aos assinantes, o editor-chefe da revista contou que uma outra capa chegou a ser produzida, mas preterida: o presidente americano chutando o globo terrestre como se fosse uma bola.

Até 19 de julho, data da final, os EUA talvez respondam qual imagem era mais precisa.



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