O Departamento de Estado norte-americano afirmou, em uma publicação nessa terça-feira (11), que o domínio dos Estados Unidos sobre o hemisfério Ocidental “nunca mais será questionado”. A declaração recupera a chamada “Doutrina Monroe”, que defendia a ideia de “América para os americanos”.
A mensagem, postada nas redes sociais, justifica a doutrina sob o argumento de que as nações do continente não deveriam estar sujeitas a intervenções estrangeiras.
Segundo a mensagem, no início, a Doutrina era um “escudo defensivo” norte-americano, enquanto os EUA se expandiram sobre territórios mexicanos do oeste. A partir do final do século XIX, a doutrina foi redefinida declarando os EUA soberanos no hemisfério. Nesse contexto, os EUA expulsaram os espanhóis de Cuba, tomaram Porto Rico e se tornaram potência dominante no Caribe.
Já o presidente norte-americano Theodore Roosevelt, no início do século XX, transformou a doutrina em um mandato de intervenção sobre o continente latino-americano. Esse foi o caso do controle sobre o Canal do Panamá; da atuação sobre Cuba, durante a Crise dos Mísseis, na década de 1960; e da oposição ao governo da Nicarágua, nos anos 1980.
Desde que assumiu o poder, o também presidente norte-americano Donald Trump reafirmou a doutrina para justificar a ação militar que capturou o venezuelano Nicolás Maduro. A mensagem do Departamento de Estado finaliza declarando que o domínio norte-americano “nunca mais será questionado”.
O professor de geopolítica da PUC-Paraná, João Nyegray, considera que os EUA querem conter a influência da China, o que gera uma tensão direta com a defesa brasileira de uma ordem internacional multipolar e o respeito à soberania das nações latino-americanas. De que usar uma doutrina do século XIX para justificar intervenções militares hoje viola a justiça internacional moderna.
“A existência de uma acusação criminal em outro país não cria, de forma alguma, autorização para forças estrangeiras ingressarem no território de um determinado Estado. É exatamente aqui que a utilização contemporânea da Doutrina Monroe se torna problemática. Então, transformar isso hoje em fundamento para intervenções significa colocar uma doutrina nacional do século XIX acima das regras multilaterais construídas no século XX.”
O professor de geopolítica da PUC-Paraná, também vê contradição de Washington ao condenar a influência de outras potências enquanto reafirma a própria. O vídeo do Departamento de Estado dos EUA, inclusive, não cita as intervenções norte-americanas anteriores na América Latina, que levaram os países da região a regimes ditatoriais ao longo do século passado.
“Veja, os Estados Unidos querem impedir que a Rússia estabeleça uma esfera privilegiada de influência sobre os seus vizinhos, querem impedir que a China faça algo semelhante na Ásia, mas, ao mesmo tempo, retomam uma doutrina em que eles acreditam que podem fazer isso nas Américas, né? E, para o Brasil, esse é um precedente muito delicado, porque o Brasil construiu boa parte da sua projeção internacional não sobre capacidade militar, mas sobre diplomacia, sobre negociação, sobre produção de consenso.”
O Secretário de Defesa, Pete Hegseth, tem citado a mesma Doutrina Monroe, em seus discursos, para justificar a política militar do atual governo norte-americano. Na justificativa de Orçamento para a Defesa, apresentada ao Congresso norte-americano, em abril, o departamento cita a Doutrina para conseguir recursos de alinhamento de atores da região aos interesses dos EUA, por meio da abertura de mercados e acesso a ativos para empresas e exportações de energia. Entre as prioridades, a extração e processamento de terras raras e minerais críticos.
