Sempre que ocorrem novos ataques envolvendo banhistas e tubarões, na costa brasileira, aparecem as informações incorretas, fake news e dúvidas, que passam a circular, principalmente nas redes sociais.
Um menino de 11 anos e uma jovem de 19 anos foram as mais recentes vítimas de ataques de tubarões. Desta vez, na orla da região metropolitana de Recife.
Para explicar essas ocorrências, especialistas apontam fatores climáticos, ambientais e, claro, a intervenção humana no ecossistema marítimo para os ataques.
Pernambuco passou a ter um aumento de casos envolvendo tubarões, após a construção do Complexo Industrial Portuário de Suape, na região metropolitana.
Pesquisas atribuem o aumento dos ataques na região, ao empreendimento, como explica o biólogo marinho Marcelo Szpilman:
“Ele acabou com o mangue da região e aí houve uma diminuição na oferta de alimentação, e também fechou duas bocas de rio. E a fêmea penetra na água doce para parir o filhote em água doce. Quando você fecha a boca de rio e acaba com a comida, essa população que havia em Suape, que nunca representou grandes ameaças, ela se deslocou para o Grande Recife”, diz.
O biólogo explica que a construção causou um aumento na interação involuntária entre os tubarões e os frequentadores da orla. Na Grande Recife, por exemplo, 90% dos ataques são da espécie Cabeça Chata e 10% do tubarão Tigre.
Segundo o pesquisador Marcelo Szpilman, os ataques do tubarão da espécie Cabeça-chata podem acontecer em águas muito rasas, como o ocorrido, recentemente, com a criança de onze anos. Já o tubarão Tigre costuma atacar em maior profundidade, mais afastado da areia.
Outro fator de risco apontado pelos estudiosos é a maré alta: isso permite que os tubarões cruzem a barreira de recifes de corais. Além disso, a água que banha a orla fica mais turva nos períodos de chuvas, como explica a pesquisadora do Núcleo de Ensino Ambiental da Universidade Federal Rural de Pernambuco, Mariana Cruz:
“Devido à turbidez da água, a visão do tubarão vai ficando mais comprometida, para isso ele vai utilizar poros que existem no rosto dele, que a gente chama de sexto sentido, que são as ampolas de Lorenzini. Essas ampolas de Lorenzini conseguem detectar a presença de seres vivos que vão estar escondidos, mas não identificando que não somos a presa dele. Então ele só vai identificar depois da mordida investigativa”, afirma.
Na Praia de Boa Viagem, em Recife, já ocorreram 25 ataques, desde 1992, segundo o Cemit, Comitê Estadual de Monitoramento de Incidentes com Tubarões. Neste caso específico, Marcelo Szpilman explica que as características do mar e das correntes, naquele local, influenciam para maior presença de tubarões.
“Em frente à praia de Boa Viagem existe um canal submarino que passa bem próximo, e é exatamente na borda desse canal que tem a maior formação de onda, e é onde vai ter o surfista tentando pegar sua onda. E exatamente nesse canal o tubarão cabeça-chata passa para tentar capturar seu peixe. E aí existe a possibilidade de haver um ataque não provocado”, aponta.
O biólogo reforça ainda que não se trata de um desequilíbrio ambiental ou ataque intencional dos tubarões:
“O ecossistema da região não está em desequilíbrio porque os ataques não são com fins de alimentação. Tubarão é um animal muito adaptável. Se está faltando comida em algum lugar, ele se desloca para outro lugar. Então não é o desequilíbrio ou um potencial desequilíbrio que vai fazer com que o animal ataque ou não”, completa.
No estado de Pernambuco, existem mais de 150 placas, em 33 quilômetros de orla, que alertam sobre o perigo no mar, em relação aos tubarões. A bióloga Camilla Vilarim dá outras dicas que ajudam a evitar possíveis ataques na região:
“Durante períodos chuvosos e em águas turvas: o tubarão enxerga muito bem, mas em águas turvas ele pode acabar confundindo o ser humano com uma presa. Em áreas sem proteção de recifes, e mesmo que tenha recife e a maré esteja alta, não é indicado entrar. O tubarão cabeça-chata pode adentrar o rio, ele utiliza o estuário também como área de reprodução, e a gente precisa ter uma atenção maior nessas áreas. Ao amanhecer e ao cair da tarde são momentos que os animais, os tubarões, eles estão mais propícios a se alimentarem. O tubarão ele tem um olfato muito bom, então se estiver com algum ferimento, algum sangramento, não é indicado entrar no mar”, diz.
Segundo o Cemit, órgão ligado à Secretaria de Meio Ambiente pernambucana, a orla do estado, somada a Fernando de Noronha, já registrou 84 casos desde 1992, quando as ocorrências começaram a ser registradas.
*Com produção de Lygia Carvalho

