sábado 13, junho, 2026 - 17:28

Esporte

Copa: Migrantes buscam hora alternativa no futebol de NY – 13/06/2026 – Esporte

Cinco dias antes de a bola rolar nos Estados Unidos para a Copa do Mundo, a cidade de Nov

image_printImprimir


Cinco dias antes de a bola rolar nos Estados Unidos para a Copa do Mundo, a cidade de Nova York recebeu no último domingo (7) um animado duelo entre Palmeiras e Juventus. Foi no parque de Randall’s Island, onde migrantes da Guatemala se enfrentaram vestindo camisas do time brasileiro e do italiano.

A partida não apresentou grande qualidade técnica, porém teve seu placar definido em um bonito chute. No lance derradeiro, Nolberto, que vestia a camisa 8 da Juventus, ficou com sobra a três passos da grande área e finalizou. A bola explodiu no travessão, bateu nas costas do goleiro e morreu na rede: 1 a 0.

O autor do gol mal teve tempo para celebrar. Eram 9h, e o campo 74 do parque estava reservado para um jogo de crianças. Os adultos responsáveis nem mesmo esperaram o término do embate entre os guatemaltecos para, sem cerimônia, carregar para o gramado as traves portáteis usadas na recreação infantil.

É assim que muitos dos migrantes que vivem em Nova York fazem para jogar futebol. Sem acesso à programação oficial dos parques municipais —que exige registro no sistema e pagamento de uma taxa que varia de US$ 24 a US$ 56 (R$ 123 a R$ 288) por hora—, calçam suas chuteiras em horários alternativos.

Não é incomum que partidas tenham início por volta das 6h, ainda com o dia clareando, quando os atletas chegam com suas bicicletas. No caso do Palmeiras x Juventus de domingo, um dos companheiros de Nolberto teve de sair no intervalo para trabalhar como entregador. Os demais partiram quando o campo foi ocupado por aqueles que o haviam reservado.

Desconfiados, eles evitaram conceder entrevistas. Aqueles que atuavam com o uniforme do clube da zona oeste paulistana, questionados sobre o motivo da escolha, disseram apenas gostar do Brasil. Os ganhadores, mais animados, toparam posar para a foto da vitória, com a ilha de Manhattan ao fundo.

O parque de Randall’s Island não é o único em Nova York com campos de futebol, mas é bem conhecido por jogadores que nele chegaram a viver. De agosto de 2023 a fevereiro de 2025, em meio a uma crise migratória que sobrecarregou o sistema de acolhimento da cidade, funcionou no local um abrigo de emergência com capacidade para 3.000 pessoas.

As tendas foram erguidas ao lado do Icahn Stadium, onde a seleção da Holanda bateu o Uzbequistão em amistoso preparatório para a Copa realizado na última segunda (8). O estádio foi construído no local onde ficava o Downing Stadium, palco da estreia de Pelé com a camisa do New York Cosmos, há 51 anos, e demolido em 2002.

Hoje, outros brasileiros jogam futebol na ilha. É o caso do publicitário Marcus Castro, de 42 anos, que mora há 12 na região metropolitana de Nova York. Acostumado a defender o Cruzeirinho do Tatuapé no futebol de várzea de São Paulo, ele teve inicialmente dificuldade para encontrar um time nos EUA.

A primeira experiência foi bem diferente da que ele tivera nos campos de terra localizados atrás da estação Carrão do metrô. Uma de suas especialidades era a cobrança de escanteio na cabeça de um volante talentoso pelo alto. Pois a pelada que o paulistano achou tinha homens e mulheres misturados e proibia chutes fortes e bolas aéreas.

Insatisfeito com o que chamou de “gincana”, finalmente foi chamado para algo mais parecido com o futebol ao qual estava habituado. Um colega de trabalho de sua mulher perguntou a ela: “Seu marido não é brasileiro? Ele joga bem? Mas joga bem mesmo?”. Castro passou em uma espécie de teste e defende o NY Shamrock há mais de uma década.

Fundado em 1960 por migrantes irlandeses e baseado no bairro do Queens, o clube ainda é majoritariamente formado por atletas da Irlanda. No caso da equipe 40+, eles são reforçados por Marquinhos —como Castro era chamado nos tempos de Cruzeirinho e também como seus atuais companheiros se referem a ele— e alguns jamaicanos.

O Shamrock disputa uma liga de nome extremamente nova-iorquino, a Cosmopolitan Soccer League. Na CSL, enfrenta clubes como Polonez SC, que conta com atletas poloneses, SC Gjoa, repleto de noruegueses, Al-Asad, com muitos sauditas, Panatha USA, formado por gregos, e NY Galicia, cuja escalação tem espanhóis e portugueses.

“É muito étnico, quase uma Copa do Mundo mesmo. Em uma semana a gente joga contra um time grego, na outra semana joga contra um escandinavo, depois é contra um time latino… É muito interessante, você sempre acaba escutando línguas diferentes enquanto você está jogando”, afirmou o brasileiro.

Independentemente do idioma, há um sentimento comum.

“A coisa que mais conecta é o amor ao futebol. São pessoas que trabalham de segunda a sexta, de segunda a sábado, às vezes vão ao jogo direto do trabalho no domingo. É o amor ao futebol e um senso de comunidade que unem a gente”, disse Marquinhos, em frase que se aplica também aos guatemaltecos de Palmeiras e Juventus.

No fim, o sorriso do artilheiro de domingo, Nolberto, é o mesmo de Eric, Pedro, Ferdi, Sadia e Negão, autores dos gols da mais recente vitória do Cruzeirinho, 7 a 1 sobre o Lyon no agora sintético gramado do Carrão. E não é muito diferente do exibido pelo mexicano Julián Andrés Quiñones, responsável pela primeira bola na rede da Copa do Mundo de 2026.

“Cara, é futebol”, resumiu Marquinhos. “Aqui, lá, na várzea, na Copa, é futebol. E a gente ama.”



Fonte da Notícia

Leave A Comment