Quando Marrocos eliminou Espanha e Portugal na Copa do Mundo de 2022 e se tornou a primeira seleção africana a alcançar uma semifinal de Mundial, o desempenho foi tratado como uma das maiores surpresas da história da competição.
Quatro anos depois, o cenário mudou. A seleção enfrenta a França em um mata-mata nesta quinta-feira (9), às 17h (de Brasília), pelas quartas de final, tentando mostrar que o que aconteceu no Qatar deixou de ser exceção para se transformar em um novo patamar do futebol marroquino.
O confronto reedita justamente a semifinal de 2022. Na ocasião, a França venceu por 2 a 0, com gols de Theo Hernández e Kolo Muani, e avançou. Mas a derrota não apagou o feito marroquino: mesmo após perder para a Croácia na disputa do terceiro lugar, a equipe encerrou o Mundial com a melhor campanha da história de uma seleção africana.
Os resultados desde então reforçam a ideia de continuidade. Marrocos chega às quartas de final invicto há 34 partidas oficiais. A última derrota ocorreu para o Quênia, em agosto de 2025. A sequência atravessou as Eliminatórias Africanas, a Copa Africana de Nações e a atual Copa do Mundo.
A série, porém, tem uma particularidade. Na final da Copa Africana de Nações, disputada em janeiro deste ano, Marrocos foi derrotado por Senegal por 1 a 0 na prorrogação. Meses depois, a CAF (Confederação Africana de Futebol) anulou o resultado ao entender que os senegaleses haviam abandonado o gramado durante um protesto contra uma decisão da arbitragem.
A entidade transformou o placar em vitória administrativa por 3 a 0 para os marroquinos e atribuiu o título à seleção. Senegal recorreu ao CAS (Tribunal Arbitral do Esporte), e o caso ainda aguarda decisão. Oficialmente, porém, a partida integra a série invicta.
A classificação para a Copa também veio sem sobressaltos. Marrocos foi a primeira seleção africana a garantir vaga no Mundial de 2026. A manutenção do desempenho indicava a continuidade de Walid Regragui, responsável pela campanha histórica no Qatar.
Mas, pouco mais de três meses antes da estreia no Mundial, Regragui pediu demissão. Disse que estava esgotado depois de quase quatro anos no cargo e que a seleção precisava de “uma nova visão” e “uma energia diferente”.
A decisão surpreendeu. Ele deixava o comando após classificar Marrocos para a Copa, acumular uma sequência de 19 vitórias consecutivas e se tornar o treinador mais vitorioso da história da seleção.
Para substituí-lo, a federação apostou em Mohamed Ouahbi, então campeão mundial sub-20 com Marrocos. Nascido na Bélgica, ele assumiu a seleção principal sem experiência anterior no futebol de seleções adultas, depois de conquistar o Mundial da categoria em 2025.
Em vez de promover uma ruptura, Ouahbi manteve a espinha dorsal construída por Regragui e fez mudanças pontuais. A principal delas foi adiantar Azzedine Ounahi, que passou a atuar mais próximo da área.
O resultado apareceu nas oitavas de final. O meio-campista marcou dois gols na vitória por 3 a 0 sobre o Canadá e se tornou o primeiro jogador africano desde Henri Camara, por Senegal em 2002, a marcar duas vezes em um jogo de mata-mata de Copa do Mundo.
Outra novidade foi a utilização de Ismael Saibari em funções mais avançadas no ataque. O jogador virou uma das principais referências ofensivas da equipe nesta Copa e soma três gols no torneio. Lesionado contra o Canadá, é dúvida para enfrentar a França.
Se Saibari e Ounahi simbolizam a renovação ofensiva, Achraf Hakimi continua sendo o principal líder da equipe. Capitão da seleção e ex-companheiro de Kylian Mbappé no Paris Saint-Germain, o lateral terá pela frente justamente o principal candidato à artilharia da Copa, autor de sete gols até aqui.
Há outro confronto que ajuda a explicar a força das duas equipes. Michael Olise lidera a Copa com cinco assistências. Logo atrás aparece Brahim Díaz, com quatro. Se Mbappé e Hakimi concentram os holofotes, Olise e Brahim são os principais responsáveis pela criação das jogadas de França e Marrocos.
Na atual Copa, os marroquinos terminaram invictos um grupo que também tinha Brasil, Escócia e Haiti, eliminaram a Holanda nos pênaltis e passaram pelo Canadá. A classificação fez da equipe a primeira seleção africana a alcançar as quartas de final em duas Copas consecutivas.

