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Copa do Mundo hipercomercializada da Fifa veio para ficar? – 21/07/2026 – Esporte

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Torcedores de futebol interessados em levar para casa um pedaço da final de domingo (19) da Copa do Mundo podem comprar um pedaço de gramado encapsulado em acrílico, acompanhado de um ingresso da partida gravado em ouro e uma miniatura de troféu em cristal lapidado —disponível na loja online da Fifa pelo preço de US$ 3.000 (R$ 15,2 mil).

Cerca de 2.000 torcedores fanáticos também poderão comprar novos “anéis de campeão”, uma referência à antiga tradição dos esportes americanos de presentear os vencedores de títulos com joias comemorativas, embora os preços ainda não tenham sido anunciados.

Os mais recentes produtos premium da entidade máxima do futebol coroam um torneio de cinco semanas no qual a comercialização do evento esportivo mais assistido do mundo —realizado nos Estados Unidos, no Canadá e no México— foi levada a um nível sem precedentes.

No entanto, embora as inovações da Fifa tenham sido em grande parte um sucesso financeiro, alguns elementos irritaram os torcedores. Os ingressos para a final de domingo entre Espanha e Argentina começaram em US$ 4.185 (R$ 21,3 mil), um valor quase sete vezes maior do que o praticado no torneio anterior, no Qatar. A questão agora é se 2026 será um caso isolado ou se estabelecerá um novo padrão para as futuras Copas do Mundo.

“Não acho que veremos algo assim novamente em nossas vidas. Todos os fatores que levaram a essas receitas elevadíssimas são tipicamente americanos”, disse Ricardo Fort, consultor que anteriormente comandou as áreas de patrocínio da Visa e da Coca-Cola. “Acredito que olharemos para esta Copa do Mundo como um caso atípico.”

No torneio deste ano, a Fifa adotou a precificação dinâmica de ingressos, itens de coleção caros e serviços de hospitalidade de alto padrão, além de introduzir novos elementos, como as “paradas para hidratação” patrocinadas, que deram às emissoras parceiras mais tempo para vender publicidade.

Em uma tentativa de recriar o espetáculo grandioso do Super Bowl —o evento esportivo mais amado dos Estados Unidos—, a final de domingo contou com um show no intervalo estrelado por Shakira, Madonna e o grupo de K-pop BTS. Em uma decisão polêmica, o evento quebrou a tradição do futebol ao impor uma pausa mais longa no intervalo do que os 15 minutos que têm sido o padrão há mais de um século.

A Fifa justificou essas medidas apontando para as tendências do mercado local e para a necessidade de maximizar a oportunidade de sediar seu principal evento na maior economia do mundo.

Esta Copa do Mundo de caráter altamente comercial trouxe resultados financeiros expressivos: a receita do ciclo de quatro anos deve atingir pelo menos US$ 13 bilhões (R$ 66 bilhões), um aumento considerável em relação aos US$ 7,6 bilhões (R$ 38,6 bilhões) da edição anterior. O valor final pode ser ainda maior.

“Os Estados Unidos permitiram que a Fifa desse um salto gigantesco”, disse Michael Payne, ex-diretor comercial do Comitê Olímpico Internacional. “Mas não acredito que haverá um grande retrocesso no futuro; um marco foi estabelecido.”

Grande parte desse crescimento veio da venda de ingressos e de serviços de hospitalidade. Além de cobrar preços muito mais altos pelos ingressos das partidas do que em Copas anteriores, a Fifa lançou sua própria plataforma de revenda e reteve uma comissão de 15% tanto do comprador quanto do vendedor em cada transação, provocando indignação entre grupos de torcedores e preocupação entre órgãos reguladores.

Pelo menos três estados americanos iniciaram investigações para apurar se as práticas da entidade máxima do futebol em relação aos ingressos violaram as leis locais de defesa do consumidor.

A legislação europeia provavelmente tornaria impossível repetir algumas das práticas de venda de ingressos da Fifa na próxima Copa do Mundo, que será realizada na Espanha, em Portugal e no Marrocos. A FSE (Football Supporters Europe), organização que representa torcedores, participa de um esforço de lobby para endurecer ainda mais as regras —como proibir a precificação dinâmica em eventos ao vivo— no âmbito da Lei de Justiça Digital da União Europeia.

“Aposto na legislação da UE de proteção ao consumidor para acabar com algumas das piores práticas [da Fifa] em relação aos ingressos”, afirmou Ronan Evain, diretor executivo da FSE.

O impacto de uma legislação semelhante foi sentido no Canadá durante a atual Copa do Mundo. A província de Ontário proíbe a revenda de ingressos por valores acima do preço de face; por isso, houve pouca revenda de ingressos para os jogos realizados em Toronto, em comparação com as outras cidades-sede.

Outros aspectos provavelmente serão diferentes na próxima edição. Por exemplo, os estádios europeus do torneio de 2030 terão dificuldade em oferecer o mesmo nível de hospitalidade de luxo encontrado nos locais dos Estados Unidos, além de a Espanha e Portugal proibirem o consumo de álcool pelos torcedores em seus assentos.

As próprias projeções da Fifa indicam uma queda de quase US$ 1 bilhão (R$ 5,1 bilhões) na receita com ingressos e hospitalidade no ciclo de 2030.

No entanto, espera-se que algumas das novidades do torneio —como as pausas de três minutos para hidratação— sejam mantidas, especialmente à medida que cresce a importância do público dos Estados Unidos. A emissora Fox pagou US$ 485 milhões (R$ 2,5 bilhões) pelos direitos de transmissão do torneio em inglês nos Estados Unidos e teria recuperado mais da metade desse valor apenas com a venda de publicidade durante as pausas para hidratação, segundo analistas do setor.

Espera-se que as emissoras apresentem ofertas muito mais altas pelos direitos de transmissão nos Estados Unidos para o próximo torneio, tornando esse espaço publicitário adicional uma parte fundamental do pacote.

Os valores de patrocínio saltaram este ano em comparação com o Mundial do Qatar, em parte graças à chegada da Saudi Aramco como a maior parceira comercial da Fifa antes da Copa do Mundo de 2034, que será realizada na Arábia Saudita.

A Fifa espera que o interesse dos patrocinadores cresça ainda mais, apesar de alguns abalos à reputação ocorridos durante o ciclo da Copa de 2026. A entidade foi criticada após suspender uma punição de um jogo a um jogador americano após reclamações da Casa Branca. A Uefa, a entidade europeia, disse que a decisão “cruzou uma linha vermelha”, enquanto outros alertaram que isso levantava sérias preocupações sobre a independência política e a credibilidade da Fifa.

No entanto, a história mostra que a posição singular da Copa do Mundo como o evento esportivo mais popular do planeta a tornou amplamente imune a qualquer queda na demanda por parte de empresas que buscam utilizar o evento como plataforma de marketing.

Fort, consultor especializado em patrocínios, afirmou que as marcas veem a Copa do Mundo e a Fifa como “entidades muito diferentes” e destacou o fato de que, mesmo quando a entidade foi abalada por um grande escândalo de corrupção em 2015, os parceiros comerciais do torneio permaneceram.

“Não acho que exista algo que se possa fazer para prejudicar o interesse na Copa do Mundo”, disse ele.

No geral, a Fifa estima que, mesmo com uma queda nas receitas de venda de ingressos e hospitalidade, o próximo ciclo deverá gerar US$ 14 bilhões (R$ 71,1 bilhões), graças a novos aumentos nos patrocínios e nos direitos de transmissão. Mais do que um caso isolado, alguns veem o torneio deste ano como um novo marco de referência.

“Acho que isso é apenas o começo”, disse um executivo sênior de publicidade com vínculos com a Fifa. “Se você acha que a Copa do Mundo está muito comercial agora… espere para ver o que vem por aí.”



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