Já está em operação o mercado de explicações monocausais para a queda da seleção. O problema não é apenas o fato de que uma queda como a brasileira obviamente tem causas múltiplas.
Entre as explicações estapafúrdias está o puro preconceito religioso que vincula a queda da seleção à mudança demográfica entre os jogadores, da maioria católica para a evangélica. Sobre essa estultice, agradeço a Rodrigo Toniol e Juliano Spyer por me desobrigarem do suplício de escrever.
Entre as explicações plausíveis à primeira vista, uma repete que o Brasil caiu porque “copiou os europeus” e “perdeu a brasilidade”. Substitua europeus por Premier League e brasilidade por ginga, malemolência ou corporeidades subalternas. Dá na mesma.
Seus proponentes não parecem se dar conta da idade dessa explicação, da frequência com que reaparece e de sua estrutura tautológica.
O discurso sobre uma identidade brasileira unívoca no futebol, associada à ginga, tem 90 anos. Gesta-se no Jornal dos Sports de Mário Filho, nos anos 1930, e recebe sua formulação canônica em “Futebol mulato” (1938), de Gilberto Freyre –um gigante do pensamento que não mantinha uma relação de grande proximidade com o futebol.
Em parceria com a definição unívoca de futebol brasileiro, transita a definição também estereotipada de futebol europeu, associado à cintura-dura, força física, chutão ou rigidez tática. Em Freyre, o termo é “futebol anguloso”.
Aqueles que dizem que o Brasil caiu porque copiou a Europa falam de qual Europa? A Espanha, da posse de bola e da superioridade numérica com triângulos móveis de toques? A Itália, do futebol tático, travado e defensivo? A Premier League, da intensidade, dos duelos de das transições rápidas?
Ronaldo associou a derrota de 2026 à falta de dribles no meio-campo. Enquanto eu imaginava um filme de terror com um volante brasileiro tentando driblar Olmo e Olise, me perguntava: Ronaldo se lembra de dribles de Gilberto Silva e Kléberson, meio-campistas do penta?
Claro que não sou contra o drible. Só aponto que a definição do que é brasileiro vai mudando. Em 2002, Zagallo criticou o esquema de Felipão, dizendo que três zagueiros era copiar os europeus e que brasileira era a linha de quatro. Se o Brasil não tivesse vencido 2002, alguém duvida que Felipão teria sido acusado de copiar os europeus?
Eis aqui a tautologia: associamos as seleções vencedoras à brasilidade. 1970, 1994 e 2002 são equipes que quase nada têm em comum, e é possível imaginar as duas últimas acusadas de europeísmo se tivessem perdido. Inclusive seus técnicos o foram, quando perderam em 2006 e 2014.
Há perguntas legítimas sobre a identidade do jogo brasileiro, mas justificar derrotas com a perda da brasilidade é uma tautologia. Brasileiro chama de tipicamente brasileira a seleção que vence. Com a exceção de 1982, todas as não campeãs foram acusadas de copiar europeus.
Cuidemos de problemas concretos: liga, arbitragens, simulação de faltas, calendário, formação de jogadores, comunicação da base com o profissional, transparência nas convocações. O modelo de jogo deve ser discutido no interior desses problemas concretos, não com mistificações.
LINK PRESENTE: Gostou deste texto? Assinante pode liberar sete acessos gratuitos de qualquer link por dia. Basta clicar no F azul abaixo.
