Saúde

rótulos podem esconder armadilhas em alimentos


A preocupação com a alimentação tem levado muita gente a trocar biscoitos, sobremesas e lanches tradicionais por versões apresentadas como mais saudáveis. Barrinhas de proteína, bebidas lácteas proteicas, cereais, biscoitos “fit”, shakes e refeições prontas ganharam espaço na rotina, principalmente entre quem procura praticidade sem abrir mão dos cuidados com a saúde.

O problema é que palavras como “fit”, “zero açúcar”, “rico em fibras” ou “alto teor de proteína” não transformam automaticamente um produto em uma escolha saudável.

Por trás da embalagem associada à saúde e à boa forma pode estar um alimento ultraprocessado, com uma formulação bastante diferente daquela encontrada nos alimentos in natura ou minimamente processados. Segundo a nutróloga Maria Beatriz Leme Monteiro, de São Paulo, observar apenas nutrientes destacados na embalagem pode levar a uma percepção equivocada.

“O risco está justamente em achar que, por trazer esses apelos nutricionais, o produto pode substituir a alimentação de verdade no dia a dia do paciente”, afirma.

Quando o “fit” não é tão saudável

A presença de proteínas, fibras ou vitaminas é uma característica do produto, mas não permite avaliar sozinha a qualidade da alimentação. Um item pode, por exemplo, ter alto teor de proteína e, ao mesmo tempo, apresentar uma formulação ultraprocessada. Maria Beatriz explica que a atenção deve estar voltada ao conjunto da composição.

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do Metrópoles Saúde e Ciência

“Produtos vendidos como ‘fit’, por mais que tragam apelos como ‘fit’ ou ‘proteico’, ainda não são naturais. Por isso, não devem predominar na alimentação, nem substituir o repertório alimentar diário e habitual do paciente”, diz.

A preocupação encontra respaldo em uma pesquisa publicada na revista Ciência & Saúde Coletiva. Ao analisar 146 alimentos comercializados no Brasil com os termos “fit” ou “fitness”, pesquisadores verificaram que 79% eram ultraprocessados. Além disso, 80% apresentavam outras alegações ou termos que destacavam características consideradas positivas, como “rico em fibras”, “sem glúten” ou “vegano”.

O que procurar no rótulo

De acordo com Maria Beatriz, os ultraprocessados são formulações industriais que podem apresentar açúcares, gorduras saturadas e trans, conservantes e outros aditivos utilizados na fabricação.

Para identificar o que há por trás do apelo “fit”, portanto, o consumidor pode começar pela lista de ingredientes, além de observar a tabela nutricional e a lupa frontal da Anvisa, que sinaliza quando o alimento apresenta alto teor de açúcar adicionado, gordura saturada ou sódio. Na prática, alguns cuidados ajudam na escolha:

  • Não se guie apenas pela palavra “fit”: o termo, sozinho, não informa a qualidade nutricional do produto;
  • Leia a lista de ingredientes: observe a composição completa, principalmente quando houver diversos componentes e substâncias características de formulações industriais;
  • Confira a lupa frontal: o símbolo informa quando há alto teor de açúcar adicionado, gordura saturada ou sódio;
  • Desconfie do efeito de uma única alegação: “zero açúcar”, “rico em fibras” ou “alto teor de proteína” descrevem características específicas e não significam que o produto, como um todo, seja saudável;
  • Observe a frequência: produtos ultraprocessados não devem ocupar rotineiramente o lugar de refeições baseadas em alimentos in natura ou minimamente processados.
foto colorida de alimentos ultraprocessados frente a alimentos naturias. - Metrópoles.
Alimentos vendidos como “fit” podem ser ultraprocessados e não devem substituir a comida de verdade na rotina

O problema está na substituição

Maria Beatriz destaca que a praticidade não precisa ser eliminada da rotina. A diferença está principalmente na frequência com que produtos ultraprocessados são consumidos e no espaço que passam a ocupar na alimentação.

“Para diferenciar praticidade de substituição prejudicial, um bom critério é avaliar a frequência de uso: a praticidade está em recorrer a esses produtos de forma ocasional, como exceção diante de uma rotina corrida. Já a substituição prejudicial acontece quando eles passam a ser a base das refeições do dia a dia, ocupando o espaço que deveria ser da comida de verdade”, explica.

A orientação também é defendida pela nutricionista Yuri Sato, coordenadora de Nutrição da rede Care Plus. Segundo ela, alegações como “fit”, “zero açúcar” ou “alto teor de proteína” não são garantia de que um alimento seja saudável.

Para quem precisa de opções rápidas, as profissionais citam alternativas como castanhas, frutas secas ou frutas com casca, ovos cozidos, alguns tipos de queijo e iogurte natural sem açúcar, desde que sejam consideradas as necessidades individuais e as condições adequadas de conservação.

A recomendação está de acordo com o Guia Alimentar para a População Brasileira, do Ministério da Saúde, que orienta que alimentos in natura ou minimamente processados sejam a base da alimentação e que os ultraprocessados sejam evitados.

Assim, não é necessário enxergar cada produto industrializado como “vilão”, nem abandonar completamente opções práticas. O principal cuidado é não confundir uma alegação estampada na embalagem com a qualidade do alimento como um todo. Mais importante do que procurar a palavra “fit” é entender o que há dentro da embalagem e qual espaço aquele produto ocupa na alimentação cotidiana.



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