Saúde

Psilocibina pode impedir dano nos nervos causado pela quimioterapia


Um composto presente em cogumelos alucinógenos pode ajudar a evitar um dos efeitos mais comuns da quimioterapia. Em testes com animais, a psilocibina impediu o desenvolvimento de neuropatia, condição que causa dor, formigamento e perda de sensibilidade em mãos e pés.

O estudo, publicado nessa quinta-feira (3/9) na revista Science, analisou o efeito da substância antes da quimioterapia. A neuropatia associada ao tratamento oncológico pode atingir até 60% dos pacientes, especialmente em terapias com drogas à base de platina.

Como a neuropatia se desenvolve

A neuropatia surge quando a quimioterapia danifica neurônios sensoriais responsáveis por captar estímulos na pele. Dentro dessas células, estruturas que produzem energia precisam percorrer longas distâncias até as extremidades dos nervos. Alguns quimioterápicos interrompem esse transporte. Com menos energia disponível, as terminações nervosas se degradam, o que reduz a sensibilidade e pode gerar dor persistente.

No experimento, ratos receberam duas doses de psilocibina antes de cada ciclo de quimioterapia. Nos animais que não receberam o composto, houve perda de sensibilidade e alterações nas fibras nervosas. Já nos tratados previamente, a estrutura dos nervos e a resposta ao toque foram preservadas. A equipe também observou que a substância não interferiu na ação da quimioterapia contra os tumores.

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do Metrópoles Saúde e Ciência

O que acontece nas células

Os pesquisadores identificaram que a psilocibina atua em receptores presentes nas fibras nervosas. A ativação desencadeia reações que mantêm o transporte de energia dentro dos neurônios. “Estamos demonstrando uma eficácia significativa não no tratamento, mas na prevenção da dor”, afirmou o oncologista Moran Amit, coautor do estudo, à Nature.

Em testes, os cientistas também usaram uma substância chamada tabernanthalog, que age nos mesmos receptores, mas não provoca efeitos alucinógenos. O composto também evitou danos nos nervos, com resultados semelhantes aos da psilocibina.

Indícios também em tecido humano

Para verificar se o efeito também aparece fora dos animais, os cientistas analisaram amostras de tecido nervoso humano. A quimioterapia reduziu o movimento das mitocôndrias — estruturas que produzem energia dentro das células. Quando esse tecido foi exposto à psilocibina, esse movimento foi preservado.

Os autores planejam iniciar um estudo clínico para avaliar segurança e eficácia em pacientes com câncer. A proposta é testar o uso do composto antes da quimioterapia. Se os resultados se confirmarem, a estratégia pode ajudar a reduzir a neuropatia, um efeito colateral que limita o tratamento e afeta a qualidade de vida após a remissão.



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