Há uma preocupação crescente entre economistas e investidores com o grau de dependência que a economia mundial passou a apresentar em relação a um único vetor de crescimento: a Inteligência Artificial (IA). O fenômeno não se restringe ao salto tecnológico observado nos últimos anos, manifestando-se também na estrutura produtiva global, na composição dos mercados acionários e nas rotas internacionais de comércio de semicondutores. Trata-se de uma concentração de riscos que, por sua grandeza, já é comparada por parte da comunidade acadêmica a episódios anteriores de valorização especulativa ancorada em setores específicos.
O primeiro ponto de atenção está na cadeia produtiva de chips avançados, hoje um dos elos mais estratégicos e, ao mesmo tempo, mais vulneráveis da economia mundial. A capacidade de fabricação de semicondutores de ponta permanece extremamente concentrada em poucos países asiáticos, com destaque para Taiwan. A China, por sua vez, depende muito desse comércio para abastecer a própria cadeia produtiva e sustentar a ambição de liderança tecnológica, enquanto sofre restrições crescentes decorrentes dos controles de exportação impostos pelos Estados Unidos. Qualquer disrupção nessa cadeia — seja em razão de uma escalada das tensões geopolíticas em Taiwan, seja pela adoção de novas barreiras comerciais — teria potencial para provocar choques imediatos na produção mundial de tecnologia e, por extensão, no crescimento mundial.
O segundo ponto de atenção, igualmente relevante, está na composição das Bolsas americanas. Uma parcela cada vez menor de empresas responde por uma fatia crescente da capitalização de mercado dos principais índices dos Estados Unidos. Companhias ligadas à cadeia de valor da IA concentram, atualmente, uma parcela expressiva do S&P 500, em níveis sem precedentes recentes. O resultado é uma maior exposição de fundos de pensão e carteiras de investidores à trajetória de um número reduzido de ativos, cujas cotações incorporam expectativas bastante otimistas de expansão dos lucros e da produtividade.
E é justamente sobre essas expectativas que recai o alerta mais importante para quem analisa a economia real, e não apenas os mercados financeiros. Daron Acemoglu, Prêmio Nobel de Economia de 2024, está entre os economistas mais críticos do otimismo predominante. Em seus estudos sobre os efeitos macroeconômicos da tecnologia, estima que o seu impacto sobre a produtividade total dos fatores nos Estados Unidos, ao longo da próxima década, ficaria em torno de meio ponto porcentual, com efeito cumulativo sobre o Produto Interno Bruto (PIB) entre 1% e 2%. São números modestos diante de algumas projeções de mercado, que chegam a apontar reflexos de 7% a 10% na produtividade.
O argumento central de Acemoglu não nega o potencial transformador da IA, mas questiona a velocidade e a abrangência com que esse potencial poderá se converter em ganhos efetivos de eficiência. Segundo sua análise, apenas uma parcela relativamente pequena das tarefas econômicas seria passível de automação lucrativa no horizonte de uma década. Isso limitaria o efeito agregado sobre o crescimento, mesmo em um quadro de adoção tecnológica bem-sucedida. O risco central, portanto, não está na tecnologia em si, mas no descompasso entre a magnitude das apostas financeiras já realizadas e a magnitude provável dos retornos econômicos. Caso as estimativas mais conservadoras se confirmem, o mercado acionário norte-americano — e, por extensão, a economia global, dada a sua interconexão com fundos de pensão e fluxos de capital — estaria precificando uma revolução produtiva que talvez não se materialize na escala esperada. Uma correção abrupta nas ações ligadas à ferramenta teria potencial de gerar efeitos de segunda ordem sobre consumo, investimento e confiança, mesmo em economias sem exposição direta ao setor de tecnologia.
Por isso, ganham relevância a diversificação das fontes de crescimento e a manutenção de uma postura analítica cautelosa frente a narrativas excessivamente otimistas. A história econômica já demonstrou, em episódios como a bolha das empresas “ponto com”, que tecnologias genuinamente transformadoras podem coexistir com ciclos especulativos severos antes que seus benefícios se consolidem. A IA provavelmente seguirá uma trajetória semelhante: deverá exercer papel significativo no longo prazo, mas estará sujeita, em curto e médio prazos, a ajustes de expectativas. A economia mundial, hoje cada vez mais concentrada em torno desse vetor de expansão, precisa estar preparada para absorver essas eventuais correções.
