O Brasil confirmou 18 casos de sarampo em 2026, sendo 16 deles no estado de São Paulo. Embora o país continue sem circulação endêmica da doença, o registro de novos casos levanta uma preocupação. Afinal, o sarampo pode voltar a provocar grandes surtos?
Segundo especialistas, o risco existe, mas um grande surto depende de uma combinação de fatores, principalmente da cobertura vacinal e da rapidez na identificação e no controle dos primeiros casos.
“O Brasil continua classificado como país sem circulação endêmica do sarampo, mas essa condição não significa ausência total de casos”, explica o clínico geral Lucas Albanaz, diretor clínico do Hospital Santa Lúcia Gama.
Ele afirma que surtos costumam ocorrer quando o vírus chega a locais com muitas pessoas suscetíveis. “Um país pode apresentar cobertura vacinal razoável e, ainda assim, possuir municípios ou comunidades com grande acúmulo de crianças e adultos não vacinados”, destaca.
O que é o sarampo?
- O sarampo voltou a circular no Brasil após ter sido eliminado em 2016, principalmente por causa da queda na cobertura vacinal. No início de 2025, o país voltou a ser considerado livre da doença.
- A doença é altamente contagiosa e o vírus pode sobreviver no ar por até 24 horas, sendo muito mais transmissível que outros vírus como o da gripe e o da Covid-19.
- O sarampo pode causar complicações graves como pneumonia e encefalite, a inflamação do cérebro, especialmente em crianças menores de 5 anos, sendo potencialmente fatal.
- A vacina tríplice viral é a principal forma de prevenção. Deve ser aplicada nos bebês em duas doses, aos 12 e 15 meses de idade.
- Em casos de surtos, o Ministério da Saúde recomenda uma dose da vacina para crianças a partir dos 6 meses de idade e também a re-vacinação de adultos.
Por que o sarampo se espalha tão facilmente
O sarampo é considerado uma das doenças mais contagiosas do mundo. A facilidade de transmissão está relacionada ao fato de o vírus se espalhar pelo ar e permanecer suspenso no ambiente por várias horas.
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do Metrópoles Saúde e Ciência
“O sarampo é uma doença de transmissão respiratória através de aerossóis. Partículas respiratórias que ficam suspensas no ar por muitas horas podem conter quantidades significativas de vírus capazes de infectar outras pessoas”, explica André Bon, coordenador da Infectologia do Hospital Brasília e head de Infectologia da Rede Américas.
Segundo ele, essa característica permite que a transmissão aconteça com facilidade, inclusive antes do aparecimento dos sintomas mais típicos da doença.
Crianças pequenas correm maior risco
Embora qualquer pessoa sem proteção possa contrair sarampo, algumas têm maior risco de desenvolver formas graves.
Bon explica que crianças menores de 1 ano são as mais vulneráveis porque muitas ainda não receberam todas as doses da vacina e possuem um sistema imunológico imaturo. Adultos imunossuprimidos também apresentam maior risco de complicações.
Albanaz acrescenta que a pneumonia é a complicação mais frequente e a principal causa de morte relacionada ao sarampo em crianças pequenas. A doença também pode provocar encefalite, uma inflamação no cérebro que pode deixar sequelas neurológicas.
Na gestação, o sarampo aumenta o risco de pneumonia materna, parto prematuro, perda gestacional e nascimento de bebês com baixo peso.
Vacinação continua sendo a principal proteção
Os médicos reforçam que a vacinação é a medida mais importante para impedir a circulação do vírus. Albanaz destaca que cerca de 95% da população precisa estar protegida com as duas doses da vacina para reduzir de forma consistente o risco de surtos.
“Esse percentual deve ser alcançado de forma homogênea, não apenas na média nacional, mas também em cada município, bairro, escola e comunidade”, afirma.
Além disso, a segunda dose é indispensável porque uma pequena parcela das pessoas não desenvolve proteção suficiente após a primeira aplicação.
No calendário brasileiro, a vacina tríplice viral é aplicada aos 12 e aos 15 meses de idade. Pessoas que não completaram o esquema também podem atualizar a vacinação na idade adulta, conforme a recomendação do Ministério da Saúde.
Resposta rápida evita que casos importados se espalhem
Além da vacinação, clínico gera aponta que a identificação precoce dos casos é decisiva para impedir que o vírus volte a circular no país. Segundo ele, pacientes com febre, manchas vermelhas na pele, tosse, coriza ou conjuntivite, principalmente quando há histórico de viagem ou contato com viajantes, devem ser investigados rapidamente.
A notificação à vigilância epidemiológica, o isolamento do paciente, o rastreamento dos contatos e a vacinação de bloqueio das pessoas expostas fazem parte das medidas que ajudam a interromper a cadeia de transmissão.
“O Brasil pode voltar a enfrentar grandes surtos, principalmente se o vírus chegar a comunidades com baixa vacinação. Mas, com cobertura elevada e homogênea, detecção precoce e resposta rápida, casos importados podem ser contidos antes que se transformem em uma emergência nacional”, conclui.
