Esporte

Onde você gostaria de correr sua última corrida? – 03/08/2026 – No Corre


A morte de Júlio Barreto após concluir uma meia maratona em São Paulo, no último dia 26, causou previsível comoção midiática e mais previsível ainda reação da prefeitura paulistana, que anunciou a criação de um grupo de trabalho para se debruçar sobre algo que deveria ter sido sua preocupação desde sempre –até por ficar com a receita de taxas e a gerada pelos forasteiros.

Sem saber, Júlio fez sua última corrida; se inquirido, talvez escolhesse outro local para a prova fatídica. Possivelmente nem corrida fosse, dada sua intimidade com o pedal. O fotógrafo Caio Guatelli, ex-titular da coluna Ciclocosmo, desta Folha, lembrou-se dele como “um dos caras mais da paz” que já conheceu na bike.

Perguntei para algumas pessoas onde desejariam fazer a última corrida, caso soubessem da iminência da própria morte. Valia tudo: de prova “major” a cascalho solitário. Bicampeã da Corrida do Gari, Vanderléia de França disse que voltaria à cidade natal, Poção de Pedras (MA), onde jamais correu, para também rever sua família.

Tadeu Guglielmi, que está por oito provas de concluir seu projeto de correr cem maratonas em todos os continentes, disse que o que importa na equação são “as pessoas que escolhemos para nos acompanhar”.

O treinador e pioneiro da corrida Wanderlei Oliveira e a professora de corrida do Cepeusp Paula Lavieri optaram por locais bucólicos em que já passaram temporadas, em desafogo a São Paulo, onde sempre viveram. Elegeram as vilas medievais de Regensburg, na Baviera alemã, e Éragny-sur-Oise, perto de Paris, respectivamente.

Já a maratonista Anamélia Tannus ficou com a mara de Boston, que disputou seis vezes –está inscrita para a sétima, no ano que vem–, como estação derradeira. Contou principalmente o fato de ter sido essa, em 2021, a última prova de seu marido, que havia recebido pouco antes diagnóstico de Alzheimer.

Minha escolha é um fim de tarde ordinário na USP, local mais frequente dos meus cascalhos nesta encarnação. Menção especial para Olímpia, não a paulista, mas a grega, do Peloponeso, onde estive em 2003 e parei momentaneamente a corrida para dar passagem a um grupo de cabras.

Quando soube que lhe restavam poucos anos de vida, a jornalista Erika Sallum decidiu intensificar o que adorava fazer: viajar e pedalar. Mesmo debilitada pelo câncer, fez pedais exigentes na Itália e na Colômbia. Seu último rolé foi com o companheiro Caio Guatelli numa praça perto de sua casa, em São Paulo.

Erika, amiga calorosa e generosa com quem trabalhei nesta Folha e alhures, criadora da coluna Ciclocosmo, teve em Caio um parceiro de vida e de pedal. Ambos deixaram o singelo curta “Confie na Bike!”.

Foi ao passar outro dia pela ciclopassarela Erika Sallum, em São Paulo, algo que faço rotineiramente, que pensei nesta modesta homenagem. Na semana que vem completam-se cinco anos de sua morte.

Ulisses passou dez anos guerreando em Troia e outros tantos para regressar a Ítaca; Danielzinho, quatro anos entre sua marca abaixo de 2h05, o recorde sul-americano da maratona, 113ª melhor marca do mundo, em Seul, e o alheamento nas ruas paulistanas. Se sua biografia trágica fosse apenas ficção literária, talvez estivesse menos para a lira de Homero do que para a de Goethe.


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