Brasil Hoje

Por que a Selic não chega ao crediário?


Há uma premissa implícita em quase toda discussão sobre política monetária no Brasil: a de que, ao elevar a Selic, o Banco Central (BC) encarece o crédito, desestimula o consumo e arrefece a demanda. O raciocínio faz sentido do ponto de vista econômico e, em boa medida, funciona. Aqui, porém, essa lógica perde força justamente no segmento em que uma parcela expressiva das decisões de consumo é tomada — o crediário, o cartão de crédito e o crédito rotativo.

A taxa básica de juros está em 14,25% ao ano (a.a.). Já a taxa média das concessões de crédito livre para pessoas físicas gira em torno de 62% a.a. No cartão de crédito parcelado, os juros superam 180% a.a., enquanto o rotativo — ainda a principal porta de entrada para o endividamento de curto prazo — opera entre 420% e 440% a.a. Diante de um diferencial dessa magnitude entre a Selic e o custo final do crédito, um ajuste de 0,25 ponto porcentual (p.p.) na taxa básica torna-se estatisticamente irrelevante para a decisão de compra do consumidor. Trata-se de uma fração mínima de um spread determinado muito mais pelo risco de crédito, pela inadimplência esperada, pelos custos operacionais e pela estrutura do mercado financeiro do que pelo custo de captação.

A forma como o consumidor toma suas decisões consolida esse descolamento. Entre as famílias de rendas média e baixa, a escolha raramente se baseia no custo efetivo total da operação, mas no valor da prestação em relação ao espaço disponível no orçamento mensal. É uma racionalidade orientada pelo fluxo de caixa, e não pelo valor presente. Nesse contexto, o varejo não reage ao aumento dos juros reduzindo preços, mas estendendo os prazos de pagamento. Parcelamentos de 12 meses transformam-se em 18, preservando uma prestação compatível com o limite psicológico do comprador. O encarecimento do crédito, portanto, é absorvido pelo prazo, e não pela redução da demanda. Em termos econômicos, a elasticidade da demanda em relação aos juros nesse segmento aproxima-se de zero no curto prazo. 

Os efeitos desse mecanismo aparecem nas estatísticas de endividamento. Em junho, 81,6% das famílias declararam ter dívidas a vencer, o maior porcentual da série histórica, iniciada em 2010. O comprometimento médio da renda alcançou 29,3%, enquanto a inadimplência atingiu 29,9%. Nesse contexto, os juros elevados não produziram uma retração significativa do consumo, mas estimularam o alongamento dos prazos, a rolagem das dívidas e o aumento dos atrasos. A restrição efetiva ao consumo ocorreu pelo acúmulo do estoque de endividamento, e não pelo preço do crédito. Em outras palavras, as famílias deixaram de consumir quando o orçamento já estava comprometido, e não porque os juros se tornaram mais altos.

O aperto financeiro, por sua vez, incide de forma muito mais intensa sobre os agentes que efetivamente respondem ao custo do dinheiro. Empresas que avaliam projetos de investimento em comparação com o rendimento de uma NTN-B, as operações de financiamento imobiliário e o capital de giro de pequenos negócios apresentam elevada sensibilidade às variações da taxa de juros. Não por acaso, o ciclo recente desse aperto comprimiu a formação bruta de capital fixo com intensidade superior à observada no consumo familiar. O resultado é uma combinação pouco desejável, restringindo-se a oferta futura sem reduzir, na mesma proporção, a demanda presente — exatamente o oposto do que se espera de uma estratégia voltada para o crescimento sustentado com estabilidade de preços.

Nada disso constitui um argumento para abandonar a política monetária. A Selic continua sendo o principal instrumento de contenção da inflação e de preservação da ancoragem das expectativas. O ponto central é outro. Primeiro, a intensidade do aperto importa. Manter juros reais próximos de dois dígitos para conter um consumo pouco sensível ao custo do crédito impõe um elevado custo em termos de investimento, em troca de um benefício relativamente modesto sobre a inflação. Segundo, o problema do crediário não é apenas macroeconômico, mas também microeconômico; envolve ampliar a transparência sobre o custo efetivo total das operações, fortalecer mecanismos como o cadastro positivo e aperfeiçoar as regras do crédito rotativo. Isto é, reduzir as distorções do mercado de crédito exige mais do que ajustes na Selic.





Source link

Deixe um comentário