A primeira Copa do Mundo com 48 seleções mal terminou, mas Gianni Infantino já reconheceu a possibilidade de que o maior torneio de futebol possa crescer ainda mais, uma medida que poderia alterar fundamentalmente a economia do esporte.
Em entrevista à televisão suíça durante o torneio, o presidente da Fifa (Federação Internacional de Futebol) afirmou que uma Copa do Mundo com 64 seleções estava entre as ideias que poderiam ser analisadas após o fim da competição, reabrindo o debate sobre qual seria o tamanho realista para o principal evento do futebol mundial.
As implicações logísticas de uma nova expansão são óbvias. Um torneio maior exigiria mais estádios, mais hotéis, mais transporte e, muito provavelmente, mais tempo.
No entanto, as implicações financeiras podem ser ainda mais significativas. Ao facilitar a classificação para muitas das maiores seleções do futebol, um torneio com 64 equipes poderia reduzir o valor comercial das competições eliminatórias, ao mesmo tempo em que aumentaria a importância do principal evento da Fifa.
Se as emissoras derem menos valor às campanhas de classificação, as seis confederações regionais de futebol poderiam se tornar cada vez mais dependentes dos repasses da própria Fifa, deslocando potencialmente mais influência financeira —e poder— para a entidade máxima do futebol mundial.
“Não acho que seja uma boa ideia para a Copa do Mundo em si, nem para as nossas eliminatórias. Portanto, não apoio essa ideia”, disse o presidente da Uefa (União das Associações Europeias de Futebol), Aleksander Ceferin, no ano passado. A posição da entidade europeia não mudou desde então.
O presidente da Confederação Asiática de Futebol, Sheikh Salman bin Ibrahim Al Khalifa, também manifestou oposição, questionando no ano passado onde uma eventual expansão adicional poderia parar.
A Fifa não respondeu aos pedidos de comentário.
“Acredito que, ao organizar uma Copa do Mundo, é importante fazê-lo para o mundo todo —não apenas para a Europa e a América do Sul“, disse Infantino ao discutir a ideia de um torneio ampliado. “Se não dermos aos países menores a chance de participar da Copa do Mundo, eles não terão incentivo para continuar evoluindo.”
Desafios em uma escala completamente diferente
O torneio de 2026, realizado no Canadá, no México e nos Estados Unidos, foi o primeiro desde 1998 a abandonar o formato de 32 seleções, expandindo-se para 48 nações e 104 partidas ao longo de mais de cinco semanas.
Se a competição mantivesse a mesma estrutura básica —com grupos de quatro equipes seguidos por uma fase eliminatória com 32 times—, uma Copa do Mundo com 64 seleções compreenderia 128 partidas: 24 a mais do que em 2026 e o dobro do total realizado sob o antigo formato de 32 equipes.
A menos que a Fifa comprimisse o cronograma ou realizasse mais jogos simultaneamente, isso poderia acrescentar cerca de uma semana a um torneio que já dura mais de cinco semanas.
Há planos para que Espanha, Portugal e Marrocos sediem a maior parte da fase final de 2030, com Uruguai, Argentina e Paraguai recebendo, cada um, uma única partida da rodada de abertura para marcar o centenário do torneio.
Acomodar 64 seleções em seis países-sede apresenta um desafio organizacional imenso. Fazer isso em um único país poderia ser ainda mais exigente.
A Arábia Saudita, que sediará o torneio sozinha em 2034, já enfrenta questões significativas de calendário. O Ramadã deve começar em meados de novembro daquele ano, tornando difícil replicar a janela de novembro e dezembro utilizada na Copa do Mundo de 2022, no vizinho Qatar, e potencialmente forçando mais uma reformulação sem precedentes do calendário mundial de futebol.
Um torneio com 64 seleções ampliaria esses desafios, exigindo mais estádios, centros de treinamento, hotéis, capacidade de transporte e voluntários, além de exercer pressão adicional sobre a infraestrutura de um país que ainda está desenvolvendo sua indústria de turismo.
Os sauditas propuseram 15 locais para o atual formato de 48 seleções, com oito estádios em Riad, quatro em Jidá e outros em Khobar, Neom e Abha. As obras de construção e reforma já estão em andamento tendo em vista a Copa da Ásia de 2027.
Pressão nas ligas nacionais
Uma Copa do Mundo ampliada também sobrecarregaria ainda mais um calendário internacional já congestionado e aumentaria a pressão sobre as ligas nacionais, muitas das quais adotaram o modelo europeu tradicional de temporada, que vai de agosto a maio.
A J-League do Japão está prestes a iniciar sua primeira temporada de agosto a maio, enquanto a MLS (Major League Soccer) dos Estados Unidos planeja uma mudança semelhante a partir do próximo ano. Qualquer futura Copa do Mundo de inverno, portanto, interromperia um número cada vez maior de competições, em vez de principalmente as principais ligas europeias, como foi o caso em 2022.
A Copa do Mundo pode ser cara para as federações nacionais, mesmo as ricas como a francesa. A Federação Francesa de Futebol esperava gastar 24,5 milhões de euros (R$ 142 milhões) na Copa do Mundo deste ano, e o presidente da federação, Philippe Diallo, afirmou que a seleção provavelmente precisaria chegar pelo menos às semifinais para não ter prejuízo.
No Congresso da Fifa em Vancouver, em abril, Diallo disse que a Fifa precisava fornecer maior apoio financeiro às nações participantes.
Se um torneio com 48 seleções já está sobrecarregando as finanças das federações participantes, um evento mais longo, com 64 seleções, poderia aumentar ainda mais esses custos.
As preocupações com o bem-estar dos jogadores também se intensificariam, com mais partidas aumentando a carga de trabalho dos jogadores de elite. Um torneio com 64 seleções daria a mais nações acesso ao maior palco do futebol, mas também poderia reacender o debate sobre o equilíbrio competitivo, a duração do torneio, os custos para os torcedores e se a Copa do Mundo corre o risco de perder parte da exclusividade que há muito sustenta seu apelo.
O avanço da ideia para além da discussão pode depender, em parte, de como a primeira Copa do Mundo com 48 seleções for avaliada.

