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Esta Copa do Mundo mudou o futebol para sempre? – 21/07/2026 – Esporte

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A histórica Copa do Mundo de 48 seleções terminou em Nova Jersey no domingo, com a Espanha derrotando a Argentina no maior e mais lucrativo torneio já registrado.

No entanto, seu legado definitivo pode ser definido por um escândalo político que destruiu a alegação de neutralidade da Fifa: revelações de que um telefonema do presidente Donald Trump ao presidente da organização, Gianni Infantino, desafiou as regras para favorecer os Estados Unidos.

Os dois homens foram acompanhados na cerimônia de entrega do troféu por Mark Carney e Claudia Sheinbaum, os líderes do Canadá e do México. Mas foi Trump quem atraiu a atenção e as vaias da multidão em Nova Jersey. E foi ele quem acompanhou Infantino para entregar o troféu da Copa do Mundo ao capitão da Espanha, Rodri.

À medida que a final se aproximava, Trump classificou esta Copa do Mundo como “um dos maiores eventos esportivos de todos os tempos”. Certamente será o mais lucrativo: a Fifa, uma organização declaradamente sem fins lucrativos sediada na Suíça, espera arrecadar pelo menos US$ 13 bilhões (R$ 66,2 bilhões), quase o dobro do que faturou na Copa do Mundo anterior.

Essa bonança foi construída sobre um torneio realizado no México, no Canadá e nos Estados Unidos, com 16 seleções a mais e um nível de comercialização que gerou preços recordes de ingressos para assentos em estádios gigantescos.

Embora muitos torcedores não tenham conseguido comparecer devido aos preços elevados, os estádios ficaram praticamente lotados à medida que o evento quadrienal se tornava o centro do mundo esportivo. Cada fase também estabeleceu novos recordes de audiência. Isso foi mais evidente nos Estados Unidos, atingindo o pico quando 30 milhões de espectadores acompanharam a derrota da seleção americana para a Bélgica nas oitavas de final —apesar da intervenção presidencial.

Os americanos vão querer esquecer aquele jogo, assim como a Fifa e Infantino. Foi o momento decisivo não apenas para a eliminação dos Estados Unidos, mas também para o que muitos no esporte consideram um dos maiores escândalos da história do torneio.

Após o telefonema de Trump para Infantino, Folarin Balogun, o atacante estrela dos Estados Unidos, foi reintegrado à equipe depois de inicialmente estar sujeito a uma suspensão obrigatória de um jogo por ter sido expulso na partida anterior. Os esforços da Fifa para minimizar os acontecimentos e atribuir a decisão ao que chamou de comitê independente foram recebidos com indignação do mundo do futebol e além.

Por alguns dias, o assunto tornou-se um incidente internacional, com políticos e outras figuras de destaque expressando sua indignação. O episódio também lançou uma sombra sobre a arbitragem pelo restante do torneio, especialmente em jogos envolvendo Lionel Messi e a Argentina, em meio a alegações infundadas de que a Fifa havia aberto caminho para que a maior estrela do futebol —agora com 39 anos— encerrasse sua trajetória em Copas do Mundo no maior palco do esporte.

A Copa do Mundo da Fifa também foi marcada pela postura do governo dos Estados Unidos, país que sediou a maioria das partidas. A Fifa pouco se manifestou quando um de seus árbitros designados, originário da Somália, teve a entrada nos Estados Unidos negada logo após chegar a Miami. O árbitro, Omar Artan, descreveu posteriormente a participação no Mundial como a maior oportunidade de sua vida. Autoridades americanas o vincularam a ligações não especificadas com terrorismo.

Infantino também despertou a ira de torcedores, dentro e fora dos estádios, ao instituir pausas para hidratação que, na prática, dividiam os jogos em quatro quartos. Essas interrupções davam às equipes duas chances extras para reuniões táticas e proporcionavam às emissoras de televisão um enorme ganho financeiro. A Fox, detentora dos direitos de transmissão nos Estados Unidos, lucrou muito com o novo formato, recuperando pelo menos metade dos US$ 475 milhões (R$ 2,4 bilhões) pagos pelos direitos apenas com a venda de publicidade durante essas pausas.

Nos três países-sede, as equipes jogaram para estádios praticamente lotados, apesar de o sistema de venda de ingressos da Fifa ter gerado revolta entre os torcedores. A adoção de preços dinâmicos —modelo semelhante ao das companhias aéreas e alvo atual de pelo menos três investigações estaduais de defesa do consumidor— fez com que os valores de ingressos para jogos individuais disparassem, chegando a cifras de quatro e, por vezes, cinco dígitos. Ingressos para a final de domingo chegaram a ser vendidos por até US$ 100 mil (R$ 509 mil).

Um torcedor do Texas, Sergio Arratia, disse que vendeu seu Mustang clássico por US$ 20 mil (R$ 102 mil) pela chance de ver Messi. “Posso comprar outro carro, mas isso é uma coisa única na vida”, disse ele.

A Fifa espera que seu saldo bancário seja suficiente para aplacar qualquer descontentamento entre suas 211 federações-membro. O caso Balogun provocou críticas públicas raras no universo fechado do futebol mundial, onde a maioria das disputas é resolvida a portas fechadas. Na sequência, a entidade que rege o futebol europeu afirmou que a Fifa havia “cruzado uma linha vermelha” ao revogar a suspensão e que a “segurança das regras já não é garantida pelos seus guardiões”.

Na véspera da final, Nathán Goldberg Crenier, vice-presidente da U.S. Soccer (Federação de Futebol dos Estados Unidos), publicou um contundente artigo de opinião no The Guardian, intitulado “O pacto faustiano de Infantino com Trump manchou o maior palco do futebol”. No texto, ele conclamou as “federações de todo o mundo a encontrar coragem para se opor à visão de Infantino para o esporte”.

Infantino, eleito pela primeira vez em 2016 após um escândalo de corrupção que varreu a antiga cúpula da Fifa, concorre —até o momento, sem oposição— a um novo mandato. Em todas as suas candidaturas anteriores, ele distribuiu generosamente aos eleitores —por meio de subsídios de desenvolvimento, regalias e cargos em comitês que incluem viagens de luxo e diárias vultosas— uma parcela maior dos bilhões que a Fifa arrecada com a Copa do Mundo.

A Copa do Mundo mais lucrativa da história promete alimentar um fundo de recursos ainda maior e praticamente garante a Infantino mais quatro anos à frente da entidade máxima do futebol.

E, como se não bastasse, ele pode chegar munido de mais uma promessa: após realizar com sucesso uma Copa do Mundo com 48 seleções, Infantino agora cogita abertamente a possibilidade de expandir o torneio para 64 equipes na edição de 2030.



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