A empresária Rafaela Pimenta viu, pelo telão do estádio de Foxborough, em Boston, uma expressão que nunca havia percebido no rosto de Erling Haaland, 25. Era a estreia na Copa do Mundo contra o Iraque.
O atacante da Noruega parecia mais concentrado do que em qualquer outro momento dos quase sete anos em que ela acompanha sua carreira. Depois das partidas, vieram outras camadas: as lágrimas após vitórias históricas, como a classificação às quartas de final com os dois gols marcados sobre o Brasil.
Neste sábado (11), às 18h (de Brasília), em Miami, o camisa 9 lidera a equipe a mais um jogo difícil, desta vez contra a Inglaterra, país em que nasceu. Ele tem sete gols em quatro jogos disputados, atrás somente de Lionel Messi e Kylian Mbappé, com oito —do outro lado há Harry Kane, com seis.
A campanha da Noruega também é marcada por uma coincidência geracional: Haaland, Sørloth e Kristian Thorstvedt são filhos de jogadores que defenderam a seleção na Copa de 1994, igualmente realizada nos Estados Unidos.
Responsável pela carreira do norueguês e por ter conduzido a transferência dele para o Manchester City, bem como a renovação contratual por nove anos e meio, Pimenta afirma que nunca tentou moldar a personalidade do jogador nem construir uma imagem artificial para o público.
“A nossa ambição aqui sempre foi possibilitar a ele se exprimir como ele é realmente, sem nenhum tipo de treinamento de mídia, sem nenhum tipo de filtro, porque não é uma pessoa que necessita que a gente esteja colocando filtros”, disse à Folha a empresária do atacante, que é famoso nas redes sociais, curiosamente, com diversas postagens no Snapchat usando filtros que mudam sua aparência, entre outras publicações divertidas.
“Mas também não sei como esse coitado está aguentando o tanto de memes do Brasil que eu mandei para ele, porque estava tudo muito incrível”, brincou.
Haaland se tornou um dos jogadores mais queridos nesta edição da Copa. E consegue atender a isso porque é ativo nas redes sociais e entra nas brincadeiras, como quando comentou vídeo feito com inteligência artificial em que ele e Vinicius Junior emulavam cena do filme “As Branquelas”. Também respondeu pessoas, e até uma música gravada na adolescência se tornou fenômeno, enquanto a namorada dele recebeu apoio de brasileiros em publicações.
Ao mesmo tempo, já foram lançados quatro vídeos no YouTube sobre a rotina no Mundial. Em um deles, por exemplo, Haaland passa um tempo numa loja em Dallas, em que compra chapéus e botas de caubói, se divertindo com outros membros da equipe da Noruega. O último vídeo, por outro lado, trouxe mais emoções sobre vencer o Brasil, além de uma ode à quantidade de torcedores e jogadores icônicos que o país tem.
A brasileira e o norueguês, por exemplo, participam de leilões de bolsa de luxo em momentos mais calmos. Não houve espaço para esse passatempo nesta Copa do Mundo.
Para Pimenta, um ponto positivo na preparação de Haaland é que as coisas não são pensadas e mudadas para grandes competições, mas feitas a partir da repetição de hábitos ao longo da carreira. Segundo ela, alimentação, recuperação física e rotina não foram alterados por causa da Copa do Mundo.
“A verdade é que, infelizmente, não tenho nada assim incrível de fogos de artifício para contar, porque é mantivemos tudo o que sempre fizemos. Não são coisas específicas para a Copa, mas sim para não sair da rotina. Por mais sem graça que pareça, o que faz isso funcionar é uma rotina. Você tem que fazer o que faz sempre, a vida inteira. E é isso que é o difícil: fazer dia após dia, ano após ano, a mesma coisa.”
O futebol de alto rendimento passou a exigir do atleta uma série de cuidados fora do horário de treino. Recuperação física, alimentação e tecnologias de acompanhamento passaram a fazer parte da rotina de jogadores que atuam no mais alto nível. Por conta disso, a seleção da Noruega levou ao torneio diversos alimentos, enquanto Pimenta comprou outros itens específicos e pediu para entregar.
“Quando a gente fala deste nível, não existe uma diferença enorme entre Ronaldo e Messi. ‘Eu gosto mais do Ronaldo’, ‘Eu gosto mais do Messi’. Agora, existe uma diferença enorme entre o Ronaldo e o jogador da várzea, por exemplo”, diz ela.
A exposição durante a Copa também ampliou a visibilidade da própria empresária, sempre identificada como ‘a primeira superagente do futebol’. Pimenta afirma ter recebido mais mensagens de mulheres interessadas em trabalhar com futebol, mas diz que procura manter o foco nas responsabilidades assumidas com os jogadores e suas famílias.
“É fácil se perder nesse glamour que existe em torno do futebol. Mas a gente não pode perder o foco da responsabilidade que assumiu quando disse a uma família: ‘deixa comigo, essa parte do problema é minha’. Se minha história servir para passar essa mensagem, essa plataforma para as mulheres, está ótimo. E que a gente continue trabalhando, porque é isso que faz a gente continuar existindo”, disse.
A brasileira está em Miami para acompanhar a partida deste sábado.
E aí ficou a dúvida: será que algum dia Haaland vem ao Brasil?
“Eu não vou sossegar enquanto não levar ele. Então é uma questão de tempo.”

