Djed Spence, da Inglaterra, Luca Zidane, da Argélia, Stefan Posch, da Áustria, e Sebastián Cáceres, do Uruguai, são ogadores que entraram em campo nesta Copa do Mundo com máscaras de proteção facial.
Embora chamem a atenção nos gramados, elas já fazem parte da rotina do esporte de alto rendimento: confeccionadas sob medida, protegem a região lesionada e aceleram o retorno dos atletas aos campeonatos após fraturas na face.
O uso vai além das grandes competições de futebol. Nas Olimpíadas do Rio, em 2016, por exemplo, o italiano Matteo Aicardi, da seleção de polo aquático, competiu usando o equipamento.
Cláudio Etzberger, membro da equipe médica dos Jogos Olímpicos do Rio e especialista em odontologia do esporte, explica que o acessório é mais comum em modalidades com maior contato físico e risco de impacto no rosto. Também é o caso de modalidades como futsal, basquete, vôlei e handebol, além do futebol de cegos, o futebol de 5.
A máscara não é uma cura para lesões. Ela funciona como um escudo. “A máscara pode antecipar a tua volta depois de um trauma na face. Ela ajuda no sentido de amenizar uma pancada, prevenindo uma nova fratura“, afirma Etzberger.
Sem o acessório, o atleta volta às competições somente após a consolidação da fratura e, nesse período, precisa ficar afastado dos treinamentos. Segundo o especialista, a recuperação de uma fratura na face leva, em média, de 45 a 90 dias, tempo semelhante ao de uma fratura no braço.
No futebol, por conta dos choques de cabeça, cotoveladas e quedas, é comum que jogadores tenham fraturas no nariz, na mandíbula e no osso zigomático —aquele localizado abaixo dos olhos, também conhecido como osso da maçã do rosto ou malar.
O primeiro passo é colocar o osso fraturado no lugar —seja com cirurgia ou sem ela— para que ele calcifique da forma correta. Na sequência, o atleta pode voltar a jogar usando a máscara.
Dentista da equipe Grêmio Osasco Audax e professor da Associação Brasileira de Odontologia, em São Paulo, Alexandre Barberini conta que, de forma geral, todas as fraturas no rosto têm indicação de uso de máscara faciais em conjunto com protetores bucais.
“A solicitação da máscara facial é realizada pelo médico do clube e pelo departamento de saúde e performance. Já os protetores bucais são pedidos pelo dentista do esporte”, diz.
Como as máscaras são feitas
À Folha os profissionais explicaram que o processo de fabricação de máscaras de proteção é complexo.
Os modelos são personalizados de acordo com o local da fratura. Em casos cirúrgicos, o atleta também pode voltar a jogar com a máscara, desde que siga as orientações médicas.
Entre os jogadores que disputam o Mundial, o zagueiro Djed Spence, da Inglaterra, e o lateral Stefan Posch, da Áustria, precisaram recorrer a máscaras após fraturas na mandíbula.
Spence sofreu a lesão no fim da temporada pelo Tottenham, enquanto Posch quebrou o mesmo osso na estreia da seleção austríaca no Mundial, contra a Jordânia.
Com máscaras personalizadas que protegem o queixo e a lateral da face, ambos puderam seguir na competição.
Já o goleiro Luca Zidane, da Argélia, teve uma fratura na mandíbula e no queixo em abril, enquanto jogava pelo Granada, da Espanha. O modelo envolve a testa, as maçãs do rosto, as laterais da face, a mandíbula e o queixo.
O zagueiro Sebastián Cáceres, do Uruguai, por sua vez, teve uma fratura no osso zigomático. O modelo escolhido foi moldado para proteger a região das órbitas dos olhos, as maçãs do rosto e parte do nariz.
Segundo Etzberger e Barberini, há dois métodos principais para a fabricação de máscaras faciais.
O primeiro é artesanal e começa com a confecção de um molde do rosto do paciente. Para isso, aplica-se alginato —o mesmo material usado por dentistas para moldagens odontológicas sobre a face. Em seguida, o alginato é recoberto com gaze gessada, que endurece e forma um molde do rosto.
A partir desse molde, é produzido um modelo em gesso da face do paciente. É sobre essa réplica que o profissional confecciona a máscara. “É uma técnica quase artesanal”, diz Barberini.
A segunda alternativa é mais tecnológica. Em vez da moldagem manual, utiliza-se um escâner para captar a anatomia do rosto e gerar um modelo digital em 3D.
Os ajustes, como a espessura do material e o formato da máscara, são feitos diretamente no computador antes da fabricação da peça. Isso também reduz o tempo necessário para a produção.
A espessura do equipamento depende da extensão da fratura e combina diferentes materiais. No local da lesão, o material é reforçado. Na imagem a seguir, com modelagem do rosto de Lucas Sena, que jogou na equipe sub-20 do Palmeiras, equivale à parte roxa.
Independentemente do método de fabricação, as máscaras combinam materiais com funções diferentes.
O EVA (etileno-vinil-acetato), também utilizado em protetores bucais, é confortável para estar em contato com a pele e absorve impactos por ser flexível. O acetato ou o acrílico compõem a parte rígida, responsável por dar maior proteção à região lesionada.
“Geralmente, são 3 mm de placa macia em EVA, de 1,8 a 2 mm de estrutura rígida em acetato ou acrílico, e mais 3 mm de outra camada macia em EVA, formando um sanduiche”, explica Barberini.
Dependendo do tempo de cicatrização do osso fraturado, os atletas podem usar a máscara por semanas ou meses.
“Tu colocas a cor que quiser e até patrocínio. Aí vais adaptar a parte dos olhos, porque não podes interferir em nada do jogador. Ele tem que conseguir olhar para os lados. A máscara tem que estar muito bem adaptada para não ficar roçando. Depois, é bem fácil: é só fazer os furinhos nas laterais e colocar a tira elástica”, diz Retzberger.

