A entrevista coletiva do lateral Danilo foi absolutamente elucidativa sobre a dificuldade de jogar uma Copa do Mundo depois de quatro anos de amadorismo: “Eu sempre fui muito crítico quando se é muito amador”.
Fala da crise iniciada na Copa América da Covid, no Brasil de 2021, quando o presidente da CBF, Rogério Caboclo, decidiu cumprir acordos com Jair Bolsonaro e Alejandro Dominguez, da Conmebol, contra a vontade de todos os jogadores.
Caboclo caiu, Ednaldo Rodrigues assumiu e, com ele, a contagem das garrafas de água e dos sacos de gelo. A CBF regulava o dinheiro em estrutura essencial a atletas profissionais.
Danilo usou a metáfora do bambu chinês para dizer que o trabalho, agora sério, deve dar resultado nos próximos anos. Antes é preciso tentar vencer a Copa nos Estados Unidos apesar de o time ainda não possuir maturidade tática.
A transformação precisa começar contra o Haiti.
Há 22 anos, a seleção viveu um dia especial em Porto Príncipe, capital do país em que foi vitoriosa a única revolução de escravizados do planeta.
O Haiti vivia violenta guerra civil e a população pôde trocar armas por ingressos para assistir a três gols de Ronaldinho Gaúcho, dois de Roger Flores, um de Nilmar. O Jogo da Paz com o Brasil liderando missão da ONU pela estabilização no país deixou um legado.
Carlos Alberto Parreira, campeão mundial nos Estados Unidos, costuma se referir àquela semana como o episódio mais emocionante de sua carreira. Foi preparador físico na campanha do Tri, treinador do Tetra, trabalhou em Gana, Kuait, Estados Unidos, Arábia Saudita e Emirados Árabes, esteve em oito Copas do Mundo e nada o emocionou mais que o Jogo da Paz.
incent Fenel é motorista de aplicativo em Nova Jersey. Diz que torcerá para o Brasil na Copa. Para o Haiti não. Sua lembrança é da seleção de Ronaldinho Gaúcho, que fez seu país trocar armas por gols.
O Haiti é resultado da única revolução que levou escravizados ao poder, no início do século 19. Napoleão Bonaparte mandou mais de 20 mil soldados a Porto Príncipe para retomar o controle. Houve resistência maior da que o governo francês imaginava e a guerra se prolongou até o verão.
Então, um exército de mosquitos entrou na batalha e contaminou mais de metade dos franceses com febre amarela. Incomodado com o custo da operação e com a derrota inevitável, Napoleão desistiu da incursão na América e aceitou a oferta dos EUA para comprar a Louisiana, estado cujo nome foi dado em referência a Luís 14 e que significa “Terra de Luís.”
A Revolução Haitiana, vencida pelos escravizados, criou uma bandeira azul e vermelha, em duas listras horizontais. É a bandeira da França, sem o branco. Não, sem os brancos.
O Haiti conviveu com embargos econômicos, uma das razões de não ter se desenvolvido e de sua população ter sido deixado por décadas exposta à fome e à guerra civil.
Diferentemente dos Estados Unidos e da França, o Brasil é visto pelos haitianos como um país amigo. Especialmente por aquele dia em que trocaram armas por ingressos para assistir a Ronaldo e a Ronaldinho Gaúcho.
Nesta sexta, na Filadélfia, a seleção bem que poderia produzir sorrisos em quem ama bom futebol, como fez em Porto Príncipe no Jogo da Paz de 2004.

