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Filho de doméstica, Everaldo chega à elite dos narradores – 12/06/2026 – Esporte

Em 1996, quando cursava o último ano do ensino médio, o paulistano Everaldo Marques sou

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Em 1996, quando cursava o último ano do ensino médio, o paulistano Everaldo Marques soube de um curso de jornalismo esportivo que seria dado pelo comentarista Flavio Prado.

Como estava determinado desde a infância a se tornar narrador, aquelas aulas logo se tornaram um objeto do desejo. Mas sua família não tinha como pagar o curso. Foi então que sua mãe, uma empregada doméstica, pediu empréstimo a uma patroa e deu o dinheiro ao filho único.

Foi o ponto inicial de uma trajetória repleta de contratempos.

Três décadas depois, Everaldo alcança o Santo Graal dos narradores esportivos brasileiros. Aos 47 anos, vai transmitir as partidas da seleção em uma Copa do Mundo na TV Globo –embora sem exclusividade, como em outros tempos, a emissora ainda tem audiência bem superior à concorrência.

Ele lembra que esta será sua sexta Copa, mas a primeira com o Brasil na Globo. “Não existe nada que traga mais visibilidade para um narrador”, afirma.

Antes de Everaldo, apenas quatro locutores ocuparam esse espaço. Em 1970, quando a Globo passou a exibir o Mundial, o dono da voz era Geraldo José de Almeida (1919-1976). Nas disputas de 1974, 1978 e 1982, a narração ficou a cargo de Luciano do Valle (1947-2014), e a locução de 1986 coube a Osmar Santos. Galvão Bueno foi o mais longevo nesse posto, de 1990 a 2022.

Quinto nome dessa elite do microfone, Everaldo estará na estreia do Brasil no Mundial neste sábado, às 19h, na partida contra Marrocos, e nos demais jogos da equipe de Carlo Ancelotti. Também fará jogos como França x Senegal na terça-feira (16).

A notícia de que iria assumir as partidas da seleção na Copa deveria encher Everaldo de entusiasmo, mas não foi o que aconteceu em um primeiro momento. No início de abril, soube que o amigo Luís Roberto, 64, tinha recebido diagnóstico de uma neoplasia na região cervical, que o tiraria da cobertura da Copa.

Principal narrador da Globo desde a saída de Galvão, Luís Roberto faria seu primeiro Mundial nessa função.

“Uns dez dias depois [de saber da neoplasia de Luís Roberto], recebi a notícia de que eu tinha sido escolhido. Mas demorei para sorrir e fui assimilando aos poucos a ocupação desse lugar”, conta. “A ficha só começou mesmo a cair no dia da convocação da seleção.

Hoje Everaldo ocupa as cabines dos grandes estádios da Copa. Quatro décadas atrás, ficava à beira de campinhos de grama ou de terra em bairros paulistanos como Vila Prudente e Guaianazes. Enquanto os amigos se divertiam batendo bola, ele gostava de narrar a pelada.

Depois do curso de jornalismo esportivo, Flavio Prado foi determinante para que ele conseguisse um estágio na Jovem Pan, onde foi contratado algum tempo depois. Na rádio, que conciliou com a faculdade de jornalismo, atuou como produtor e repórter, mas não como narrador.

“Conheci o Evê quando participei do programa Jovem Pan no Mundo da Bola, em 1996. Ele estava aprendendo a falar no microfone e, mais tarde, foi repórter de F1. Trabalhou muito para ser narrador”, lembra o jornalista Paulo Vinicius Coelho, o PVC.

No final de 2004, a TV Cultura o chamou para transmitir os jogos da Copinha, como é conhecida a Copa São Paulo de Futebol Júnior. Inicialmente, ficaria apenas um mês, mas teve seu contrato renovado em 2005. Foi quando José Trajano, então diretor da ESPN Brasil, levou Everaldo para o canal.

Assumiu a locução de esportes muito populares nos EUA e que ganhavam espaço no Brasil, como o futebol americano. Foi nessa época que reforçou seu estilo descontraído e lançou “você é ridículo!”, o mais popular entre os seus bordões.

A mídia norte-americana costuma usar “ridiculous” para descrever um atleta ou um desempenho muito acima da média, e Everaldo deu um nó no adjetivo e o levou para suas transmissões.

Vai usar esse e outros bordões durante a Copa? “Meus chefes disseram: ‘Queremos que mantenha suas características, seu jeito de fazer. Não é para imitar o Galvão ou emular qualquer outra pessoa’”, conta. Em outras palavras, os bordões vêm aí.

Depois de uma década e meia na ESPN, Everaldo foi para o SporTV, canal esportivo por assinatura do Grupo Globo e, aos poucos, ganhou espaço também na TV aberta. Em 2020, estreou na Globo na F1 ao transmitir o Grande Prêmio da Toscana, na Itália.

Seja no automobilismo, seja no futebol, a voz de Galvão permanece forte no imaginário dos brasileiros. Nesta Copa, o locutor de 75 anos estará no SBT, o que deve suscitar comparações entre eles.

“Galvão é um nome histórico, que esteve à frente das Copas há quase 40 anos [na Globo]”, diz Everaldo. “Não controlo a audiência, a única coisa que controlo é a qualidade do que faço. Tenho consciência e disposição para chegar o mais bem preparado possível para cada uma das transmissões”.

Everaldo é conhecido no meio jornalístico como alguém que se prepara minuciosamente para cada evento.

Em 2016, foi incumbido pela direção da ESPN de transmitir a abertura dos Jogos Olímpicos do Rio. Para evitar que a atração se tornasse enfadonha, passou a estudar até 12 horas por dia para garimpar curiosidades de cada um dos 207 países que participaram da cerimônia, como contou ao UOL. “Deu um trabalho insano, mas valeu muito.”

Sem essa dedicação, não teria conseguido atingir a marca de 80 esportes narrados na TV. Os Jogos de Inverno, que aconteceram na Itália em fevereiro deste ano, contribuíram para que o número desse um salto. PVC enfatiza a paixão do amigo pelos “esportes, todos”.

No entanto, até 19 de julho, quando acontece a final da Copa, a versatilidade de Everaldo vai ficar de lado. Para ele, só haverá um esporte, o futebol.



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