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Veto a trans não tem respaldo científico, diz pesquisador – 26/03/2026 – Esporte

A decisão do COI (Comitê Olímpico Internacional) de adotar testes genéticos para dete

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A decisão do COI (Comitê Olímpico Internacional) de adotar testes genéticos para determinar a participação de atletas em categorias femininas nos Jogos Olímpicos é política e não se sustenta em evidências científicas sólidas.

Essa é a avaliação de Bruno Gualano, professor da FMUSP (Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo) e colunista da Folha.

Tendo liderado no ano passado uma metanálise que compilou 51 estudos já publicados sobre o tema, englobando 6.400 participantes, Gualano afirmou que a medida, que visa restringir a categoria feminina às atletas biologicamente do sexo feminino, vetando a inclusão de atletas trans, deve ser interpretada dentro do contexto atual do esporte e da geopolítica internacional, que envolve disputas mais amplas sobre gênero.

“A decisão do COI sofre influência do cenário político e social, o qual é desfavorável aos direitos das pessoas trans”, afirmou Gualano.

Sob críticas de grupos LGBTQIA+ e de direitos humanos, entidades esportivas, federações internacionais e governos vêm promovendo um endurecimento das regras sobre a participação de mulheres transgênero em competições e eventos esportivos ao longo dos últimos meses.

A alegação é a de que as ações visam preservar a justiça na categoria feminina e estariam embasadas em supostas vantagens competitivas em relação às atletas cis, devido a exposição à testosterona quando ainda se identificavam com o gênero masculino.

Para o pesquisador da USP, a literatura científica que sustenta esse tipo de política ainda é limitada e não comprova uma suposta vantagem física às atletas trans em comparação às competidoras cis na categoria feminina.

“Os estudos que se tem sobre isso são escassos e, em grande parte, desatualizados”, afirmou. Ele também destaca a falta de dados empíricos consistentes, o que dificultaria análises mais robustas. Segundo o COI, atletas trans representam menos de 0,001% dos esportistas de alto rendimento.

O modelo de teste anunciado nesta quinta-feira pelo Comitê Olímpico se apoia na detecção do gene SRY, associado ao cromossomo Y, por meio de análise genética, geralmente a partir de amostras de saliva.

O problema do método, segundo o pesquisador, é que, embora a detecção do SRY seja tecnicamente precisa, há limitações em sua interpretação. Isso porque a presença do gene não garante necessariamente que ele tenha expressão funcional significativa no organismo.

Esse fator não permite conclusões sobre eventual vantagem competitiva de mulheres trans sobre mulheres cisgênero, segundo Gualano. Ele explicou que existem condições biológicas raras em que o cromossomo Y pode estar presente em indivíduos com fenótipo feminino. “Isso evidencia que o teste, sozinho, é insuficiente para classificar atletas ou estimar vantagem competitiva”, argumentou.

O COI indicou a decisão que mulheres trans terão de competir na categoria masculina nas próximas Olimpíadas. “Atletas com resultado positivo no teste SRY, incluindo atletas transgênero XY e atletas XY-DSD com sensibilidade a andrógenos, continuam sendo incluídos em todas as outras classificações para as quais se qualificam. Por exemplo, são elegíveis para qualquer categoria masculina, incluindo uma vaga masculina designada em qualquer categoria mista, e qualquer categoria aberta, ou em esportes e eventos que não classificam atletas por sexo”, diz nota oficial do Comitê.

A presidente do COI, Kirsty Coventry, defendeu a decisão. “Como ex-atleta, acredito veementemente no direito de todos os atletas olímpicos de participar de competições justas. A política que anunciamos é baseada em ciência e foi liderada por especialistas médicos. Nos Jogos Olímpicos, até as menores margens podem ser a diferença entre vitória e derrota. Portanto, é absolutamente claro que não seria justo que homens biológicos competissem na categoria feminina. Além disso, em alguns esportes, simplesmente não seria seguro.”

Historicamente, o COI abandonou testes universais de sexo após os Jogos de Atlanta-1996 e, desde 2021, vinha adotando diretrizes mais flexíveis, delegando às federações a definição de regras. Para Gualano, a retomada de um critério genético único representa um retrocesso metodológico.



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