Pep Guardiola desejou muito em sua carreira como treinador de futebol. E teve, imagino, quase todos seus desejos realizados.
Técnico do Barcelona (de 2008 a 2012), quis ser campeão de vários campeonatos diferentes. Foi, conquistando Champions League, Mundial de Clubes, Espanhol, Copa do Rei, Supercopas (da Europa e da Espanha).
Técnico do Bayern de Munique (de 2013 a 2016), desejou o mesmo. Faturou Mundial de Clubes, Alemão, Copa da Alemanha e Supercopa da Europa.
Técnico do Manchester City (desde 2016), não parou de almejar grandes conquistas. Até agora, ergueu troféus do Inglês, da Copa da Inglaterra, da Copa da Liga Inglesa, Supercopa da Inglaterra, tudo mais de uma vez. E, uma vez, da Champions League, do Mundial de Clubes e da Supercopa da Europa.
Em quantidade de conquistas (41, podendo chegar a 42 neste sábado, diante do Chelsea, na decisão da Copa da Inglaterra), considerando o futebol profissional de alto nível, só perde para o escocês Alex Ferguson (50), hoje com 84 anos, aposentado desde 2013. Os prêmios individuais, a maioria de “melhor treinador” (do mês, da temporada, do século), estão na casa dos 50.
O espanhol de 55 anos, que como jogador (volante) também era bom (não tanto como técnico), é um dos nomes mais conhecidos do futebol. Quem acompanha minimamente o esporte sabe quem é Guardiola, geralmente admirado não apenas pelos títulos mas pelo estilo de jogo, de posse de bola exacerbada, com altíssimo controle das partidas.
Assim, causou-me espanto quanto vi Pep, em um programa de perguntas e respostas no YouTube (20 Questões, da TNT Sports), afirmar não querer ficar na memória de ninguém.
A pergunta foi esta: “Como você gostaria de ser lembrado?”. A resposta, de bate-pronto, foi esta: “Não quero ser lembrado. Quero que me esqueçam”. Não me pareceu ironia, e sim uma vontade autêntica. Quando se desligar da função que exerce com tanta primazia, Pep quer mergulhar no anonimato.
As razões não foram explicitadas, ele foi lacônico. É possível especular, tentar esclarecer esse querer ser esquecido. Ou esse não querer ser lembrado.
Talvez Pep considere-se “humano demais” para ser alçado ao terreno dos imortais do futebol, onde ficaria ao lado de treinadores épicos como Ferguson, Rinus Michels, Ancelotti, Cruyff, Pozzo (campeão das Copas do Mundo de 1934 e 1938), Sacchi, Mourinho, Telê, Felipão, Zagallo.
Talvez considere-se um mero “passageiro” no futebol, sendo o esporte em si muito maior que seus personagens. Talvez considere-se desapegado, avesso a uma fama que pode ser vista como vaidade.
Talvez queira simplesmente sossego. Sem jornalistas atrás de entrevistas nas quais repetirá os momentos gloriosos e os frustrantes. Sem torcedores atrás de um autógrafo, de uma seflfie, de um aceno, de um sorriso.
Nessa quadra de “talvez”, a certeza que tenho é que esse desejo é inexequível.
Pep pode até sair de cena, morar numa casinha de sapê no alto de uma montanha ou em um vilarejo isolado, viver como ermitão ou com o mínimo de contato social. Mas o mito está criado: é e sempre será uma lenda do futebol.
Como vai ser lembrado? Seja do jeito que for, há uma certeza inequívoca, e o pleonasmo foi proposital, para reforçar o que é notório: Pep Guardiola não será esquecido jamais.

