Para o futuro do futebol brasileiro, o anúncio mais importante não aconteceu dia 18, e sim dia 14. Ali Carlo Ancelotti e CBF confirmaram o italiano no comando da seleção para as duas próximas Copas do Mundo, em anúncio de antecedência inédita. O Brasil não anuncia treinador para duas Copas seguidas.
A pergunta sobre a convocação de Neymar ganhava outro caráter. Influencers, ex e atuais jogadores e um setor do jornalismo conseguiram criar uma enorme expectativa em suas bolhas, à qual a maioria da torcida reagiu com indiferença. Levar Neymar foi a saída pragmática, que garante a Ancelotti o sossego para o trabalho rumo a 2030.
Ancelotti não é o maior inovador da história do futebol. No compêndio das táticas do jogo, Jimmy Hogan, Herbert Chapman, Béla Guttmann, Rinus Michels, Arrigo Sacchi, Johan Cruyff e Pep Guardiola merecerão capítulos mais robustos que ele. Mas talvez ninguém tenha entendido tão bem a alma dos boleiros e a respiração dos vestiários.
Dom Carletto sabe que nem os militantes políticos mais fanáticos competem com o boleiro em impermeabilidade à evidência empírica. Mesmo que o Brasil conquistasse um vice-campeonato brilhante sem Neymar, perdendo a maior final de todos os tempos para a Espanha depois de eliminar França, Inglaterra e Argentina com contundência, e o fizesse com pressão constante sobre o adversário –ou seja, a faceta do jogo com a qual Neymar menos pode contribuir –, a ladainha do lobby seria implacável: “com Neymar, teríamos sido campeões”.
À luz do anúncio de que Ancelotti será o técnico pelos próximos quatro anos, a convocação de Neymar deve, portanto, ser entendida como um passaporte para o sossego no próximo ciclo.
Ao contrário do clamor orgânico por Romário em 2002, a torcida não exigiu Neymar, como supôs um comentarista do SporTV, que confundiu uma claque arregimentada pela CBF com “o povo brasileiro”. Mas o ruído criado pelo lobby foi volumoso o suficiente para incluir uma sequência de declarações do próprio grupo de jogadores. E elas, sim, com certeza cumpriram seu papel.
Nas entrevistas, chamava a atenção a renúncia ao protagonismo. Jogadores que atuam no ataque e que, portanto, eram concorrentes de Neymar por uma vaga, como Raphinha e João Pedro, basicamente se declararam inaptos a jogar a Copa sem o ídolo ao lado.
Ancelotti atendeu ao pedido de João Pedro e levou Neymar, deixando de fora o próprio João Pedro, que fez 15 gols na liga mais difícil do mundo, enquanto Neymar fazia 15 partidas no Brasil, apanhando de Coritiba, Novorizontino e Recoleta. Tendo participado desse inacreditável ineditismo de 2026, o lobby pelo concorrente, será que João Pedro está satisfeito agora?
Sabendo que não há motivo para duvidar de que o apreço dos jogadores por Neymar seja genuíno (e não reflita apenas o medo de se indispor contra o influencer de 230 milhões de seguidores e poderoso aparato midiático e jurídico) e apostando que é possível administrar as distrações que ele traz, Dom Carletto decidiu que a apólice era pagável e o seguro valia a pena.
É perfeitamente compreensível. Tendo chegado no último ano de um ciclo desperdiçado, sem passagem de bastão, ao único país do mundo em que “não ser campeão” e “perder a Copa” são expressões sinônimas, Ancelotti optou pela saída pragmática, típica sua.
Enquanto comemorava, o lobby parecia não perceber que sua própria vitória representava o reconhecimento explícito de Dom Carletto de que, em 2026, se o caneco vier, será lucro.

