“O Neymar está vindo”, disse Rayan, apressado para deixar o Hard Rock Stadium. “Ele vai falar com vocês”, acrescentou Gabriel Martinelli, outro que passou rapidamente pela zona mista do estádio —corredor onde os atletas costumam conceder entrevistas— cerca de duas horas após a vitória da seleção brasileira por 3 a 0 sobre a Escócia, pela última rodada da fase de grupos da Copa do Mundo.
O camisa 10 foi o último jogador brasileiro a passar pelo local na quarta-feira (24). Parou por alguns minutos em cada um dos blocos onde estavam concentrados jornalistas brasileiros e estrangeiros. De diferentes formas, resumiu sua estreia no Mundial como um alívio.
“Com certeza posso colocar esse dia como um dos mais especiais porque é o sonho de qualquer menino vestir a camisa da seleção brasileira. Vesti essa camisa por muito tempo, me lesionei aqui, fiquei muitos dias longe, sentia saudades, ficava ansioso por tentar estar de volta. Hoje consegui voltar depois de quase três anos. Estou muito contente, feliz, emocionado”, afirmou Neymar.
Foram 981 dias sem entrar em campo pela seleção. O período começou em outubro de 2023, quando ele se machucou durante uma partida contra o Uruguai pelas Eliminatórias. Neymar rompeu o ligamento cruzado anterior e sofreu uma lesão no menisco do joelho esquerdo.
A recuperação o deixou quase um ano longe dos gramados, ainda como atleta do Al Hilal, da Arábia Saudita, clube pelo qual atuou pouco em razão do problema físico.
De volta ao futebol brasileiro desde janeiro do ano passado, quando retornou ao Santos, o jogador enfrentou novos contratempos físicos que adiaram seu retorno à seleção, concretizado apenas nesta quarta-feira.
“Na verdade, eu não pensei em nada [quando entrei em campo]. Só agradeci. Foi gratidão mesmo porque, nesses anos, meu objetivo era voltar para a seleção e jogar a Copa do Mundo”, afirmou o camisa 10.
Neymar precisou de cerca de 20 minutos em campo, período em que deu 13 passes e finalizou uma vez na direção do gol, para assumir um papel central também fora dele.
O atacante acabou servindo de argumento para que grande parte do elenco evitasse entrevistas e concentrasse sobre o camisa 10 a atenção dos jornalistas.
“O grupo é maravilhoso, estamos crescendo na competição”, comentou.
Embora assuma uma espécie de papel de “escudo” fora de campo, ele reconhece que sua condição atual é diferente dentro dele. Em sua quarta Copa do Mundo, é a primeira vez que inicia o torneio entre os reservas, sem uma perspectiva clara de se tornar titular, disputando espaço na equipe.
“Foi uma sensação diferente. Meu primeiro jogo de Copa em que fico no banco. E, às vezes, não sei muito o que fazer. Mas foi muito legal. Eu estou muito feliz de estar aqui, de estar no grupo, era o meu objetivo. E, agora, é seguir trabalhando para melhorar cada vez mais”, comentou.
Nove anos mais velho que Vinicius Junior, que o tem como principal ídolo, Neymar, aos 34 anos, vê no camisa 7 a principal referência da seleção neste Mundial.
“O Vini hoje é o nosso principal jogador e está numa fase incrível. Vem nos ajudando, decidindo os jogos. Isso é importante para nós”, disse.
Neymar, porém, alimenta a esperança de voltar a ser decisivo pela seleção. Ausente nos duelos contra Marrocos e Haiti, nas duas primeiras rodadas do Mundial, quando ainda se recuperava de uma lesão na panturrilha direita, o jogador afirmou que está pronto para atuar durante um jogo inteiro.
Segundo ele, depois da partida contra a Escócia, ele se sentiu bem e garante que tem condições de atuar por “200 minutos”.
Ele, no entanto, só fez dois treinos em tempo integral com o elenco até agora. O atacante já se apresentou à seleção com o problema na panturrilha direita, lesão que ele sofreu na véspera da convocação para a Copa do Mundo, anunciada por Carlo Ancelotti em 18 de maio.
Para Ancelotti, porém, seria importante contar com Neymar mesmo que fosse a partir do mata-mata. Ele também elogiou a postura do atleta.
“Trabalhou e treinou para se recuperar com muito profissionalismo e muita seriedade. Ele, por suas qualidades, pode ajudar o time nessa Copa do Mundo. Jogou bem os poucos minutos que jogou”, afirmou o técnico após o jogo com a Escócia.
O comandante pensa em usar Neymar na vaga de Matheus Cunha, o escolhido para ser substituído por ele contra a Escócia, ou como um dos atacantes mais adiantados. Diante dos escoceses, Rayan e Vini Junior ocuparam essas funções.
Com as boas atuações do camisa 7 e de Matheus Cunha, o principal concorrente de Neymar é Rayan, jovem de 19 anos, que está em sua primeira Copa.
A seleção brasileira volta a campo na segunda (29), quando inicia sua jornada no mata-mata em Houston, no Texas. O adversário sairá do Grupo F, com três possibilidades: Holanda, Japão ou Suécia.
Ancelotti deu folga para o elenco nesta quinta-feira (25) e vai começar a desenhar o time para o mata-mata a partir desta sexta (26), em Nova Jersey, onde a equipe está baseada durante a Copa do Mundo.

