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Copa do Brasil: Pelé e Bob Marley são Cosa Nostra – 22/06/2026 – Márcio Macedo

Em minha infância, meu velho costumava assistir as partidas dos Santos esmurrando uma po

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Em minha infância, meu velho costumava assistir as partidas dos Santos esmurrando uma poltrona velha na sala de casa.

Meu pai e meus tios eram santistas e fãs de Pelé não apenas porque Pelé era Pelé, mas porque o Rei Pelé também era negro. A negritude do Rei é um tema complexo e as representações produzidas em relação ao futebol brasileiro na sua conexão com temas como raça e nacionalidade o são ainda mais.

Paul Gilroy, um dos principais pensadores dos estudos culturais britânicos, afirma no prefácio da edição brasileira do seu livro “O Atlântico Negro” que foi um jovem “dissidente pós-colonial que sem nenhuma vergonha, entusiasticamente, escolheu torcer pelo Brasil na Copa do Mundo de 1970, quando eles tiraram de um time inglês formado apenas por brancos aquilo que acreditávamos ser uma posição totalmente imerecida: o título de campeões do mundo”.

A Inglaterra havia conquistado a Copa anterior e tinha um timaço, que contava com o goleiro Gordon Banks, que ficaria conhecido por sua “defesa impossível” ao desviar para fora uma bola cabeceada por Pelé. O Brasil ganharia a partida com um magro um a zero, mas com um golaço de Jairzinho, em uma bola vinda de Tostão e Pelé.

Filho de mãe negra de origem jamaicana e de pai branco inglês, Gilroy via no time brasileiro um lugar de afirmação racial para além das fronteiras nacionais, uma vez que nossa seleção era composta por jogadores negros, um claro contraste com a inglesa.

Nesse sentido, a seleção de 1970 contribuiu para a veiculação de mensagens subliminares variadas sobre o Brasil e seu imaginário racial que foram capitaneadas pela ditadura. A principal era a de que seríamos uma nação de maioria mestiça sem problemas raciais: a chamada democracia racial. Éramos a nação da mestiçagem, da não existência de racismo, do Carnaval e do futebol.

Os anos 1970 são uma espécie de divisor de águas nas representações das populações negras pelo mundo. É a década da explosão do soul e do funk, ritmos estadunidenses remanescentes da secularização da música gospel negra, assim como o reggae jamaicano, que ficaria conhecido mundialmente com as canções de Bob Marley. No mesmo prefácio, Paul Gilroy menciona a afeição de Bob Marley pelo futebol brasileiro.

O rei do reggae era fã do Santos e admirador de Paulo Cézar Caju, a ponto de pedir para conhecer o jogador em sua visita ao Brasil em 1980. Por uma semana, o tricampeão mundial ciceroneou o jamaicano por rolês aleatórios no Rio de Janeiro que envolveram uma pelada da qual participaram Chico Buarque, Moraes Moreira e Toquinho, além de Marley e Caju.


Este último disse que à época não era um aficionado por reggae, sendo muito mais chegado à musicalidade soul e funk, que fazia a cabeça da juventude negra nos bailes que ficariam conhecidos como “Black Rio” e trazia um orgulho de ser negro que também extrapolava as fronteiras nacionais.

O futebol brasileiro e a música negra têm paralelos como expressões que extrapolam a dimensão nacional em sua identificação, mas também representam expressões que foram deliberadamente reinventadas por jogadores e músicos negros a partir de hibridismo cultural e criatividade.

Futebol e música são exemplos da excelência negra e popular. Pelé, Bob Marley, Paulo César Caju, Paul Gilroy, Vinicius Junior, é tudo “Cosa Nostra”.


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