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Como cientistas aperfeiçoaram gramado da Copa por décadas – 18/05/2026 – Esporte

Aconteceu logo aos oito minutos de jogo. Ángel Di María roubou a bola de um zagueiro ca

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Aconteceu logo aos oito minutos de jogo. Ángel Di María roubou a bola de um zagueiro canadense e chutou em direção ao gol adversário.

Um dos maiores jogadores da história da Argentina tinha apenas o goleiro pela frente em um lance decisivo da fase de grupos da Copa América de 2024. Mas, ao conduzir a bola até a área, parecia ter dificuldade para dominá-la.

Diante do goleiro canadense na entrada da área, Di María conseguiu apenas tocar de bico, sem força. O goleiro então defendeu com facilidade.

Depois da partida, o técnico e os jogadores argentinos deram uma explicação para o que poderia ter dado errado. Os atuais campeões mundiais alegaram que a qualidade do gramado no estádio de Atlanta, no Estado da Geórgia, nos Estados Unidos, afetou o desempenho da equipe.

O estádio onde a partida foi disputada, casa do Atlanta Falcons, time de futebol americano da liga nacional dos EUA (NFL), e do Atlanta United, equipe da Major League Soccer (MLS, a liga americana de futebol que conta com nomes como Lionel Messi), normalmente usa um gramado artificial, mas ele havia sido substituído por um campo temporário de grama natural poucos dias antes do torneio.

Os jogadores da Argentina reclamaram que a bola quicava “como em um trampolim” e descreveram o gramado como “um desastre”. As preocupações com a qualidade dos campos acompanharam o torneio à medida que as partidas eram disputadas em outros estádios pelos EUA.

Conforme a Copa do Mundo de 2026 se aproxima, os organizadores dos países-sede (EUA, Canadá e México) tentam evitar que as críticas aos gramados se repitam. Por isso, contrataram especialistas encarregados de garantir que não ocorram reclamações durante a Copa, que vai de 11 de junho a 19 de julho de 2026.

Nos últimos oito anos, pesquisadores quicaram bolas, pisotearam gramados com chuteiras e submeteram diferentes áreas de grama a testes intensos em busca do campo perfeito. Eles irrigaram, adubaram e monitoraram diferentes combinações de espécies de grama para entender como cada uma reagiria às condições de jogo. Também mediram lâminas de grama de milímetro por milímetro para encontrar a altura ideal.

“É muita pressão”, afirma John Sorochan, professor da Universidade do Tennessee, nos EUA, contratado pela Fifa para supervisionar o crescimento, a instalação e a manutenção dos gramados nos 16 estádios da Copa do Mundo, incluindo cinco arenas cobertas por domos.

“Esses são os estádios que mais me preocupam”, diz Sorochan. “O sol vai nascer, mas não dentro deles. As plantas precisam de luz, de preferência luz solar, para crescer.”

Velcro ou carpete

Com a Copa do Mundo masculina de 2026 se aproximando, o resultado acumulado de mais de 170 experimentos diferentes conduzidos por Sorochan e outros pesquisadores está prestes a ser colocado à prova. O trabalho se apoia em décadas de estudos sobre a ciência do cultivo e da instalação de gramados esportivos.

Mas os campos desenvolvidos para os estádios nos EUA, Canadá e México serão pisoteados por 22 jogadores ao mesmo tempo durante mais de 90 minutos por partida ao longo de 104 jogos. As ambições dos maiores jogadores do mundo e de bilhões de torcedores dependerão da capacidade de resistência desses gramados.

Segundo Sorochan, uma diferença de apenas cinco milímetros pode determinar se um gramado se comporta como “velcro” ou como um tapete natural perfeito, favorecendo a troca rápida de passes necessária para um jogo emocionante.

Sorochan e os colegas passaram horas realizando testes para definir a altura exata em que cada campo deveria ser cortado. Em campos em miniatura instaladas nos laboratórios de pesquisa em Knoxville, no Tennessee, nos EUA, bolas eram lançadas por máquinas vermelhas enquanto os cientistas observavam e mediam cuidadosamente velocidade e quique. Eles também empurravam sobre a grama uma estrutura metálica equipada com uma chuteira presa a um suporte, usada para golpear repetidamente o solo e testar a sua elasticidade.

Os pesquisadores avaliaram não apenas a interação da bola com a superfície, mas também a tração oferecida aos jogadores. Eles procuraram maneiras de reduzir buracos no gramado durante as partidas e evitar áreas excessivamente úmidas que pudessem prejudicar o ritmo do jogo. Pior ainda, um gramado ruim poderia ter consequências ainda mais graves, causando lesões capazes de encerrar carreiras de jogadores que valem milhões.

A distribuição geográfica dos estádios também cria outro desafio: os campos precisam resistir a condições climáticas muito diferentes, do calor úmido da Cidade do México e de Miami ao clima mais frio de Toronto e Boston.

Para lidar com isso, os pesquisadores desenvolveram sistemas de raízes, métodos de irrigação e cronogramas de manutenção específicos para cada local. Eles também testaram diferentes espécies de grama para identificar as mais adequadas a cada condição climática. Em regiões mais quentes, os campos serão feitos de grama do tipo bermuda. Já em áreas mais frias, haverá uma combinação de grama Kentucky bluegrass e azevém perene.

Sorochan e sua equipe concluíram que os gramados de grama bermuda devem ser cortados um pouco mais baixos, porque são mais densos e secam mais rapidamente do que os campos compostos por Kentucky bluegrass e azevém perene.

Para tornar os campos mais uniformes e duráveis, fibras plásticas semelhantes às usadas em gramados artificiais foram incorporadas à grama natural.

Ainda assim, jogadores que atuam na Europa, onde predominam gramados de clima frio, podem estranhar ao entrar em um campo de grama do tipo bermuda em cidades como Miami ou Kansas City.

“Eles vão olhar para isso e dizer: ‘Esse não é o gramado que tenho na Alemanha, parece mais um campo de golfe'”, afirma Sorochan.

Ele admite que cada campo terá características ligeiramente diferentes, mas acredita que, graças às pesquisas realizadas, essa variação será mínima.

“O que me deixa apreensivo é a escala gigantesca de campos temporários que precisarão ser montados ao mesmo tempo”, afirma Trey Rogers 3º, professor da Universidade do Estado de Michigan, nos EUA, que vem auxiliando Sorochan nos preparativos para a Copa do Mundo.

Os gramados precisam ser perfeitos, quase milagrosos. A Fifa depositou sua confiança em Sorochan e Rogers, referências em um campo tão específico quanto a ciência dos gramados esportivos. A dupla nunca enfrentou um desafio como o da Copa do Mundo de 2026 —e a pressão é enorme.

Mas não será a primeira vez que eles preparam gramados para o maior palco do futebol mundial.

O ‘guru dos gramados’ e o seu protegido

Rogers se apaixonou pelos gramados enquanto trabalhava em um campo de golfe no sul dos EUA. Mas sua ligação com o futebol começou em 1992, quando a Fifa buscava ajuda para instalar um campo de grama natural dentro do Pontiac Silverdome, em Michigan, que receberia quatro partidas da Copa do Mundo de 1994. O estádio era casa do Detroit Lions, equipe da NFL que jogava em gramado artificial.

Como muitos americanos, Rogers não sabia praticamente nada sobre o maior evento esportivo do planeta.

“Eu disse a frase pela qual ninguém me deixa esquecer até hoje”, conta Rogers. “O que é a Copa do Mundo?”

Mesmo assim, a Fifa escolheu Rogers para comandar o cultivo e a instalação do gramado dentro do estádio. Depois de uma série de testes, a equipe da Universidade do Estado de Michigan decidiu plantar uma combinação de Kentucky bluegrass e azevém perene em solo arenoso. A areia ajudaria na drenagem, enquanto as duas espécies de grama conseguiriam crescer em clima frio e com pouca luz solar direta.

Rogers e seus colegas plantaram sementes do lado de fora do estádio em 1.994 bandejas hexagonais. O trabalho exigiu milhares de horas de esforço, grande parte feita manualmente.

Na época, Sorochan era estudante e trabalhava no projeto. “Eu era literalmente a pessoa compactando a areia”, afirma Sorochan.

Os módulos hexagonais foram uma das maiores inovações da equipe. Eles permitiam preservar intactas as raízes da grama quando as placas do gramado eram transportadas para dentro do estádio. Era a primeira vez que um campo de grama natural seria instalado sobre um gramado artificial em um estádio coberto.

Quando Rogers viu uma equipe entrar no estádio para o primeiro treino, percebeu que os jogadores nem chegaram a examinar o gramado. Pelo visto, o campo parecia normal para eles. Como garotos, passaram a chutar bolas para o alto tentando alcançar o teto da gigantesca arena. Rogers considerou o projeto um sucesso. O trabalho lhe renderia o apelido de “o guru dos gramados”.

Mas, ao fim da Copa do Mundo de 1994, Sorochan subiu ao topo do estádio e observou o campo lá de cima. “Dava para ver o desgaste do gramado”, afirma Sorochan. “E eu pensei: nossa, como podemos melhorar isso?”

Sorochan passou o restante do período como pós-graduando pesquisando maneiras mais eficientes de cultivar grama em ambientes fechados.

E quando a Fifa entrou em contato com ele em 2018 para pedir ajuda na preparação da Copa do Mundo de 2026, Sorochan convidou Rogers e a Universidade do Estado de Michigan para participar do projeto.

O que eles teriam de realizar faria o trabalho desenvolvido no Silverdome, em 1994, parecer um experimento escolar.

Algas marinhas e sílica

Normalmente, os gramados são cultivados o mais perto possível do local onde serão instalados, em solos semelhantes aos do estádio. O processo de cortar e transportar a grama costuma causar estresse às plantas, que muitas vezes precisam de várias semanas para se recuperar.

Na Copa do Mundo, porém, muitos dos campos serão instalados apenas dez dias antes da estreia.

A extensa fazenda de gramados de Joe Wilkins 3º, nos arredores de Denver, no Colorado, nos EUA, será responsável pelos campos usados em Dallas, Atlanta e Houston. Juntos, os três estádios receberão mais de um quarto das partidas do torneio. Todas são arenas cobertas, onde o gramado não recebe luz solar direta.

“Esses são os maiores desafios”, afirma Wilkins, cujo avô fundou a Green Valley Turf Company em 1962.

Centenas de hectares da fazenda da empresa são cobertos por gramados de verde intenso. Para preparar a grama que será instalada nos estádios, a equipe de Wilkins plantou sementes em areia sobre uma fina camada de plástico. A técnica ajuda a proteger as raízes durante a colheita e reduz o impacto sofrido pelas plantas no transporte.

Nas semanas seguintes, os funcionários irrigam e cortam a grama cuidadosamente, além de aplicar fungicidas, fertilizantes, compostos húmicos, algas marinhas e sílica.

“A grama nunca tira um dia de folga”, afirma Wilkins.

Sorochan visitou a Green Valley Turf Company várias vezes nos últimos anos, e Wilkins chegou a enviar placas de grama para a Universidade do Tennessee para auxiliar nos experimentos conduzidos por ele.

Lá, a equipe construiu uma estufa moderna para reproduzir as condições internas de estádios cobertos, enquanto a Universidade do Estado de Michigan utilizou uma plataforma asfaltada de 2.100 m² para simular a instalação dos gramados sobre o piso dessas arenas.

Nos estádios abertos, a estabilização do gramado é feita com uma base de cascalho sob uma camada compacta de areia, sobre a qual a grama é desenrolada. Já nos campos temporários montados sobre gramados artificiais em estádios da NFL, a drenagem é garantida por uma grade plástica intertravada e mantas plásticas trançadas, usadas no lugar da camada de cascalho.

Faltando poucas semanas para o início da Copa do Mundo, Wilkins e sua equipe agora enfrentam o trabalhoso processo de cortar e enrolar a grama. Usando o que Wilkins descreve como “cortadores de pizza gigantes” acoplados a veículos agrícolas, os funcionários dividem a grama em faixas de 1,2 metro de largura.

Eles esperam o pôr do sol, quando a grama está seca, para então enrolá-la e carregá-la em caminhões refrigerados.

Ao mesmo tempo, dezenas de outros caminhões refrigerados transportam cerca de 93 mil metros de grama de fazendas para estádios espalhados pela América do Norte.

“Nunca fiz nada dessa dimensão na minha carreira”, afirma Alan Ferguson, diretor sênior de gestão de gramados da Fifa.

Nos estádios cobertos, quando a grama finalmente chega ao destino, talvez seja a última vez que ela tenha contato com luz natural. Ainda assim, precisará permanecer saudável por várias semanas.

Alimentando a grama

Depois que os gramados são desenrolados nas arenas cobertas, um brilho magenta passa a cobrir todo o campo. A luz vem de dezenas de barras metálicas brancas instaladas poucos metros acima da grama.

Essas luzes retráteis de LED podem ser posicionadas sobre o campo para fornecer à grama a energia necessária para continuar crescendo. Em Dallas, estádio do time Dallas Cowboys, da NFL, por exemplo, os equipamentos descem diretamente do teto da arena.

“Você pode trabalhar debaixo delas, cortar a grama, fazer toda a manutenção necessária, e o gramado continua crescendo”, afirma Sorochan.

Cultivar grama sem luz solar direta é muito mais simples hoje do que era no Silverdome, em 1994, graças aos avanços da tecnologia de diodos emissores de luz (LED).

Sorochan afirma não estar preocupado com a repetição dos problemas vistos na Copa América. Segundo ele, no Mercedes-Benz Stadium, em Atlanta, onde a Argentina e o Canadá se enfrentaram, a distância entre o gramado natural e o campo sintético usado nas partidas de futebol americano era pequena demais, criando o efeito de “trampolim” relatado pelos jogadores.

Para 2026, a Fifa exigiu uma camada de separação maior entre as superfícies.

A Copa do Mundo de Clubes de 2025 também serviu como uma espécie de ensaio parcial. Os pesquisadores responsáveis pelos gramados utilizaram muitos dos mesmos materiais, técnicas e profissionais que serão empregados no próximo ano.

“A Copa do Mundo de Clubes foi um torneio importante por si só”, afirmou Ferguson, da Fifa. “Mas também acabou nos oferecendo naturalmente a oportunidade de testar parte dessa logística.”

Embora os jogadores e técnicos ainda tenham feito algumas reclamações sobre a qualidade dos gramados durante o torneio, a Fifa afirmou que os campos atenderam aos padrões internacionais de avaliação.

Segundo Ferguson, a Fifa gastou mais de US$ 5 milhões (cerca de R$ 27,5 milhões) em pesquisas sobre gramados para a Copa do Mundo de 2026. É um valor alto para algo em que poucas pessoas pensam ao assistir ao drama da principal competição do futebol mundial.

Rogers espera que, no longo prazo, as pesquisas conduzidas por ele e Sorochan levem a melhorias mais amplas no uso de gramados em diferentes modalidades esportivas. Segundo ele, isso pode até convencer algumas equipes de futebol americano a abandonar o gramado sintético, inclusive em estádios cobertos.

“Haverá técnicas e soluções desenvolvidas ali que poderão ser aplicadas até em escolas locais”, afirma Elizabeth Guertal, professora de gestão de gramados esportivos da Universidade de Auburn, nos EUA, que não participa do projeto da Copa do Mundo.

Enquanto isso, Rogers e Sorochan sabem que um gramado bem cuidado, assim como uma criança, pode ser ao mesmo tempo delicado e resistente. É o gramado que sustenta o atacante em uma mudança brusca de direção e amortece a queda do goleiro depois de uma grande defesa.

Eles prepararam o palco onde o drama vai acontecer.

Agora, cabe aos jogadores descobrir quais sonhos vão se realizar.

Este texto foi publicado originalmente aqui.



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