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Copa do Mundo: Entenda vínculos de Cabo Verde com o Brasil – 15/06/2026 – Esporte

A atuação do goleiro Vozinha, 40, e o empate sem gols com a Espanha colocaram Cabo Verd

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A atuação do goleiro Vozinha, 40, e o empate sem gols com a Espanha colocaram Cabo Verde no centro das atenções da Copa do Mundo nesta segunda-feira (15).

Estreante em Mundiais, o pequeno arquipélago africano de pouco mais de meio milhão de habitantes tem uma relação antiga com o Brasil, construída ao longo de décadas por meio da circulação de pessoas, produtos, programas de televisão e movimentos religiosos.

O principal personagem da partida foi justamente Vozinha, ou Josimar Dias, conforme o batismo —uma homenagem de seu pai ao ex-lateral direito do Botafogo e da seleção brasileira na Copa do Mundo de 1986.

O goleiro fez sete defesas diante dos espanhóis e foi decisivo para que a seleção africana conquistasse seu primeiro ponto em Copas. Após o jogo, emocionado, resumiu: “Trabalhei a vida toda para isso”.

Outro destaque da equipe, o meia Ryan Mendes aproveitou a repercussão da partida para agradecer o apoio recebido de brasileiros durante a estreia cabo-verdiana em Mundiais.

“Um abraço forte para todos no Brasil. O brasileiro é um povo muito querido para nós cabo-verdianos. Crescemos vendo Ronaldo e Romário, o samba, o carnaval, tudo isso nos deixa arrepiado. É um país irmão. Muita sorte para vocês também”, afirmou.

Para o jogador, referências brasileiras como Romário, Ronaldo e Neymar ajudaram a inspirar gerações de atletas cabo-verdianos.

Se o apelido do goleiro despertou curiosidade entre brasileiros durante a partida, as conexões entre os dois países vão muito além de coincidências linguísticas.

Segundo Vinícius Venancio de Sousa, doutor em antropologia social pela UnB (Universidade de Brasília), os contatos entre Brasil e Cabo Verde podem ser identificados ainda no século 19.

“Quando o Brasil conquista a independência, existem movimentos independentistas em Cabo Verde querendo que Cabo Verde fosse desligado de Portugal e se vinculasse à nova nação do Brasil”, afirma.

A aproximação, porém, ganhou força sobretudo ao longo do século 20. Ainda sob domínio colonial português, Cabo Verde viu surgir uma geração de intelectuais que passou a discutir a identidade nacional do arquipélago.

Nesse contexto, as ideias do sociólogo Gilberto Freyre encontraram receptividade entre integrantes do movimento literário e intelectual conhecido como Claridade. Mas foi pela cultura de massa que a presença brasileira se tornou mais visível no cotidiano cabo-verdiano.

“Com as circulações atlânticas, muita música do Brasil chega a Cabo Verde. Isso se consolida com a expansão do rádio e da televisão”, afirma Sousa.

As novelas brasileiras tiveram papel central nesse processo. Segundo o pesquisador, durante décadas elas ocuparam uma parcela significativa da programação da televisão local.

A influência chegou a deixar marcas permanentes na geografia urbana do país. A principal feira popular de Cabo Verde recebeu o nome de Sucupira, referência à cidade fictícia criada por Dias Gomes para a novela “O Bem-Amado”.

O pesquisador diz que a presença das produções brasileiras ajudou a criar referências compartilhadas entre os dois países.

“Tanto que, se você observar a forma como os cabo-verdianos dão entrevistas para canais portugueses e para canais brasileiros, existe uma diferença. Eles próprios distinguem aquilo que chamam de falar brasileiro e falar português.”

A influência brasileira também se espalhou pelo comércio. Durante anos, comerciantes cabo-verdianas conhecidas como “rabidantes” viajaram regularmente ao Brasil para comprar mercadorias destinadas à revenda no arquipélago.

“Quando existiam voos diretos, primeiro para Fortaleza e também para São Paulo, havia um fluxo constante dessas comerciantes que vinham comprar produtos no Brasil e revender em Cabo Verde”, afirma.

Em maio deste ano, os voos diretos entre Recife e Praia, capital de Cabo Verde, foram retomados.

Entre os itens mais procurados estavam produtos de consumo popular, como as Havaianas, diz Sousa. Produtos voltados para cabelos cacheados e crespos também ganharam espaço no mercado cabo-verdiano. “Esse boom de uma negritude afirmativa no Brasil impacta também Cabo Verde”, resume o pesquisador.

A presença brasileira aparece ainda no campo religioso. Nas últimas décadas, denominações evangélicas brasileiras ampliaram sua atuação no arquipélago, acompanhadas pela expansão de conteúdos televisivos produzidos no Brasil.

“Existe uma Record em Cabo Verde que passa conteúdo praticamente 24 horas por dia vindo do Brasil”, afirma o antropólogo. “A gente tem um número muito grande de missionários evangélicos brasileiros em Cabo Verde.”

Estreante em Mundiais, Cabo Verde volta a campo, certamente com Vozinha no gol, contra o Uruguai, no domingo (21), pelo Grupo H. A Espanha enfrenta a Arábia Saudita no mesmo dia.



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