“Em 2018, foi um choque. Em 2022, pensamos: não vai acontecer de novo. Aconteceu. Desta vez, não fiquei tão triste, sabendo que ninguém faz nada para mudar as coisas”, disse-me um amigo italiano depois da fatídica derrota para a Bósnia nos “playoffs” da Copa do Mundo.
“É uma pena para os jovens, meus primos mais novos que nunca viram a Itália jogar uma Copa. Mas acho que merecemos.”
Ele resumiu bem: se a Itália ficou fora do Mundial pela terceira vez seguida, só pode culpar a si mesma.
Podemos debater motivos pelos quais a imagem de Fabio Cannavaro levantando a taça em 2006 virou memória distante; por que, em 2010 e 2014, a Azzurri nem passou da fase de grupos.
Alguns dirão que aquela grande seleção tetracampeã, com Buffon, Del Piero, Cannavaro, foi resultado de um modelo que não existe mais e que, hoje, mais de dois terços dos jogadores da Série A são estrangeiros (este me parece um argumento simplista e até preconceituoso). Que a falta de investimentos na base limita o surgimento de talentos.
Que os clubes sofrem porque, jogando em estádios velhos, é difícil lucrar com acordo comerciais. A Itália vai sediar a Eurocopa em 2032 com a Turquia, mas isso está em risco, porque não há míseros cinco estádios no padrão exigido pela Uefa.
Outro amigo italiano –ama futebol e entende do assunto, assim como o citado anteriormente– nem viu seu país enfrentar a Bósnia porque não tinha esperanças na classificação. “Também tem um pouco de perda de identidade nacional”, disse-me.
“Quando você fica fora de três, já são 12 anos sem jogar. A Itália ter vencido a Eurocopa em 2021 foi milagre. Não temos mais um Valentino Rossi, uma Ferrari que vence, muito do que tínhamos como italianos. Falta esse orgulho nacional.”
Tudo válido. Mas a origem do problema pode estar fora de campo.
Depois da Copa de 2010, quando terminou em último no grupo com Paraguai, Eslováquia e Nova Zelândia, Arrigo Sacchi –treinador da seleção finalista em 1994– foi apontado pela Federação Italiana como coordenador da base. Roberto Baggio, como presidente do setor técnico.
Sacchi pressionou clubes a investir nos jovens. Baggio criou um documento de 900 páginas chamado “Renovando o Futuro”, propondo à federação reformas no desenvolvimento de talentos, métodos de treinamento etc. Um ano depois, pediu demissão dizendo que o projeto ficou “literalmente morto”. Sacchi saiu no ano seguinte, alegando estresse e pedindo autocrítica ao futebol italiano.
“Tudo o que Baggio fez foi jogado no lixo”, lamentou meu amigo. “O maior escândalo é político. A federação continua igual, não aprende com os erros. O presidente quer ficar, mostrar poder, é por isso que seguimos nessa situação.”
Após o fiasco em 2018, o presidente da federação renunciou. O sucessor, Gabriele Gravina, continuou no cargo mesmo com novo fracasso em 2022. Depois da derrota para a Bósnia, esperou dias, mas finalmente pediu demissão.
Sim, o futebol italiano precisa de uma reforma geral. Só que sucessivas más decisões na gestão e durante as Eliminatórias –com um time comandado por Gennaro Gattuso, campeão em 2006, sem credibilidade como técnico– fizeram a Itália nem ao menos se classificar para uma Copa com 48 seleções.
O pedido de autocrítica feito por Sacchi 12 anos atrás continua valendo e mais forte do que nunca.

