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Por que boicote à Copa é improvável – 30/01/2026 – Esporte

Em meio à tensão internacional e à turbulência política interna, os apelos por um bo

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Em meio à tensão internacional e à turbulência política interna, os apelos por um boicote à Copa do Mundo de 2026, que os Estados Unidos co-organizarão com o Canadá e o México, ganharam força.

Esses apelos não ganharam apoio significativo em círculos importantes. Até o momento, a discussão sobre um boicote partiu de críticos do presidente Donald Trump e de suas táticas e políticas, e não de dirigentes de alto escalão do futebol ou autoridades governamentais —aqueles que de fato detêm o poder de esvaziar o torneio.

A ideia, porém, persistirá e poderá ressurgir nos próximos meses, a depender de novas ações de Trump e sua repercussão internacional. Portanto, vale a pena analisá-la à medida que a Copa do Mundo se aproxima, mesmo que um boicote em larga escala pareça improvável.

Por que um boicote à Copa do Mundo está sendo discutido?

A ideia foi levantada ocasionalmente ao longo do primeiro ano do segundo mandato de Trump, principalmente por torcedores que se opõem à sua abordagem internacional ou à sua postura agressiva em relação à imigração.

Mas a discussão ganhou força este mês, quando Trump afirmou, com mais veemência do que antes, que os Estados Unidos devem governar a Groenlândia, o território ártico sob controle da Dinamarca.

Inicialmente, Trump se recusou a descartar uma intervenção militar para tomar a Groenlândia e ameaçou impor novas tarifas aos países europeus que resistissem às suas exigências. Desde então, ele recuou de ambas as ameaças, mas, à medida que elas provocaram respostas firmes dos membros da OTAN (Organização do Tratado do Atlântico Norte), diversas vozes proeminentes levantaram a possibilidade de retaliação com o boicote à Copa do Mundo.

Quem está falando em boicote à Copa do Mundo?

Além de torcedores e comentaristas, uma parcela significativa das discussões vem de dois importantes países membros da OTAN: Alemanha e França.

Na Alemanha, Oke Göttlich, presidente do clube St. Pauli, da Bundesliga (a primeira divisão do Campeonato Alemão), e um dos 11 vice-presidentes da federação alemã de futebol, foi notícia ao declarar a um jornal local que “chegou a hora” de “considerar e discutir seriamente” um boicote. Ele reiterou e esclareceu seus comentários em uma entrevista ao The Athletic esta semana.

Mas o presidente da federação, Bernd Neuendorf, rapidamente rejeitou a sugestão, dizendo que a federação a considerava “completamente equivocada neste momento”. Ele observou que os comentários de Göttlich eram “uma declaração de um único representante” que “não está conosco há muito tempo”.

Vários outros dirigentes do futebol alemão ecoaram a posição de Neuendorf.

Como um boicote à Copa do Mundo se concretizaria?

Qualquer boicote total à Copa do Mundo de 2026 —ou seja, seleções se recusando a participar— quase certamente teria que partir de uma coalizão alinhada de governos nacionais.

A grande maioria dos jogadores certamente desejará jogar. Suas federações de futebol, e praticamente todas as entidades com interesse financeiro na Copa do Mundo, desejarão participar.

As únicas pessoas que poderiam organizar e impor um boicote seriam políticos de alto escalão, principalmente chefes de Estado, que veriam a Copa do Mundo como um instrumento de soft power.

Já houve algum boicote à Copa do Mundo?

Há muito tempo, existiram nações que se recusaram a participar de Copas do Mundo —ou das Eliminatórias— por diversos motivos.

Em 1934, o Uruguai optou por não viajar para a segunda Copa do Mundo, na Itália, supostamente porque várias seleções europeias (incluindo a Itália) haviam optado por não viajar ao Uruguai para o torneio inaugural quatro anos antes.

Em 1964, dois anos antes da Copa do Mundo de 1966, todas as seleções africanas se retiraram das Eliminatórias em protesto contra a Fifa (Federação Internacional de Futebol), que havia alocado apenas uma vaga combinada para todas as seleções da África, Ásia e Oceania.

Mas nunca houve um boicote à Copa do Mundo por múltiplas seleções classificadas por motivos puramente políticos. O único precedente real é o boicote liderado pelos Estados Unidos aos Jogos Olímpicos de Moscou em 1980.

Como ocorreu o boicote olímpico de 1980?

No final de 1979, sete meses antes dos Jogos de Moscou, a União Soviética invadiu o Afeganistão —um ato que o presidente dos Estados Unidos, Jimmy Carter, afirmou que “poderia representar a ameaça mais séria à paz mundial desde a Segunda Guerra Mundial”.

Na semana seguinte, funcionários do Departamento de Estado dos EUA prepararam um extenso documento delineando possíveis respostas à invasão e escreveram que a retirada dos Jogos Olímpicos de Verão de Moscou seria um “sério golpe para o prestígio internacional soviético”.

Eles observaram que um boicote “prejudicaria os atletas americanos muito mais do que afetaria as políticas ou ações soviéticas”. Mas, após um debate acalorado, Carter decidiu seguir em frente. Algumas semanas depois, ele declarou: “Nem eu, nem o povo americano, apoiaríamos o envio de uma equipe americana a Moscou com tropas de invasão soviéticas no Afeganistão”.

O governo Carter lançou uma campanha multifacetada para pressionar dirigentes olímpicos e governos estrangeiros a aderirem ao boicote. Os atletas, é claro, resistiram ferozmente.

A Casa Branca, percebendo a discordância, ameaçou indiretamente revogar a isenção fiscal do Comitê Olímpico dos EUA. Em abril, Carter disse: “Se forem necessárias ações legais para fazer cumprir a decisão de não enviar uma equipe a Moscou, então eu as tomarei”.

Em última análise, somente o comitê poderia recusar formalmente um convite olímpico, mas Carter deixou os delegados com poucas opções. Em uma reunião em abril no Colorado, eles votaram por 1.604 a 797 a favor do boicote aos Jogos Olímpicos.

Mais de 60 outras nações seguiram o exemplo dos Estados Unidos. Mas 80, incluindo muitas potências europeias, desafiaram a campanha americana, foram a Moscou e competiram. Os Jogos aconteceram, embora enfraquecidos e com menos exposição na mídia internacional.

Será que torcedores ou diplomatas vão boicotar?

Um boicote à Copa do Mundo é extremamente improvável. O cenário mais provável é que, seja em resposta a ameaças geopolíticas ou ações internas, certos grupos ou indivíduos decidam não comparecer ao torneio.

O Three Lions Pride, por exemplo, um grupo de apoio à comunidade LGBTQ+ na Inglaterra, afirmou no início deste mês que não terá uma presença visível na Copa do Mundo de 2026; entre os motivos, estão “preocupações com a liberdade de expressão” e “policiamento e aplicação da lei excessivamente zelosos” nos Estados Unidos.

Até mesmo o ex-presidente da FifaA, Joseph Blatter, escreveu em uma publicação na plataforma social X que os torcedores deveriam “ficar longe dos EUA!”.

Isso é semelhante ao que aconteceu em 2018 e 2022, quando houve objeções generalizadas aos anfitriões, Rússia e Qatar, por uma variedade de razões.

Alternativamente, um país poderia optar por não enviar diplomatas, como os Estados Unidos e outros fizeram para os Jogos Olímpicos de Inverno de 2022 em Pequim.

Mas suas seleções de futebol, até o momento, quase certamente estarão presentes.



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