Numa entrevista pedagógica nesta Folha no domingo (15), o historiador Luiz Antonio Simas, disse: “A essência do Carnaval de rua é a espontaneidade, o caráter transgressor”. “O Carnaval sobreviveu a todas as tentativas de ordená-lo porque ele tem uma dimensão única de reconstrução coletiva do sentido da vida.”
Dá para imaginar o que seria essa “reconstrução coletiva do sentido da vida” a partir do que se vê, durante os dias da festa —e também do que não se vê, na preparação para ela. No primeiro caso, a alegria de pertencer a alguma coisa, mesmo que efêmera, e aquele que está a seu lado, seu igual no compartilhamento dessa alegria, você jamais viu mais gordo (ou magro) e talvez jamais voltará a ver.
Há ainda, e essa discussão é central em São Paulo, a ocupação da cidade, tão orientada para os carros, cada vez mais elitista na política de concessão de seus bens —parques, por exemplo—, e, submetida como nunca ao capital que irriga o setor imobiliário e exclui.
Assim, parece quase um milagre que surjam na cidade blocos como o Quem Tem Boca Vaia Roma, que desfila anarquicamente em poucas quadras do Siciliano, parte da Vila Romana, e cujos fundadores optaram, deliberadamente, por não ser “grandes”, mantendo-se fiéis a uma espontaneidade que o Carnaval paulistano está a perder com seus trios elétricos vitaminados e seus desfiles redistribuídos para regiões que nada tem a ver com a origem dos blocos.
O QTB não saiu nesta segunda. Formado por diversos músicos que viviam numa mesma casa térrea ao lado da praça que servia de concentração para o desfile, ele talvez já não tenha a ligação umbilical com o bairro que tanto impactou.
Um de seus fundadores, o músico e poeta Gustavo Galo, 40, hoje morando na Mantiqueira, diz que o bloco mudou a visão que os vizinhos tinham daqueles moradores que ensaiavam e tocavam diuturnamente, às vezes incomodando a suposta paz da região.
“Houve um contágio geral. O bloco acabou por proteger a gente de olhares meio tortos, às vezes tínhamos de lidar com a polícia, que os vizinhos chamavam. Com o bloco, passaram a nos encarar não como jovens bagunceiros, mas trabalhadores do bairro.”
A partir do primeiro desfile, há uma década, começou para o QTB e para o Siciliano essa pequena utopia de uma cidade quase idílica, em que diversos moradores se conhecem e se ajudam, em que os comerciantes ainda preservam conta para pagamento para dali a trinta ou quarenta dias —caso da padaria Natalina, maior atração do bairro e parada fundamental no desfile do QTB— e que o bloco, como acontecia com os clubes esportivos lá atrás, passa a ser entendido como patrimônio coletivo, algo que as gerações futuras irão fazer questão de manter.
Talvez seja muito pedir de políticos tão tacanhos entender a dimensão disso, ainda mais com o concurso milionário de patrocinadores que vão resolvendo o que um dia pareceu a esses políticos um problema.
Hoje, ironicamente, eles se servem do Carnaval não apenas como grande gerador de receita econômica, mas se permitem assumir certa paternidade do que já chamam de “maior Carnaval do Brasil”.
Assim mesmo, a utopia da cidade melhor segue viva. Como diz Galo: “O Carnaval desfaz o rigor hierárquico, ensina a viver coletivamente e de maneira horizontal, faz aflorar rotinas que ordinariamente reprimimos.”
