O jornalista gaúcho crescido no Rio Tim Lopes morreu em 2002, aos 51 anos, assassinado por traficantes após ser sequestrado na comunidade de Vila Cruzeiro. Com uma microcâmera, ele investigava a exploração sexual de menores nos bailes funk dessa região do Rio.
Antes, para o “Fantástico”, ele havia gravado a movimentação de uma feira de drogas na Zona Oeste carioca, em que “vapores” vendiam cocaína e maconha à luz do dia, pregoando aos berros suas ofertas.
Tim vinha de três décadas de carreira de “jornalismo verdade” em meios impressos. Para o JB, para O Dia e para o alternativo O Repórter ele fez reportagens em primeira pessoa, em que se confundia com os protagonistas de seus textos. Foi operário do metrô carioca e mais tarde peão no canteiro de obras da Linha Vermelha; e, antes mesmo da chacina da Candelária, dormiu com pivetes na rua e os acompanhou em pequenos furtos.
Tim ainda foi corredor amador temporão, tendo começado aos 28 anos e disputado ao menos cinco maratonas. No Rio, ele participava de um grupo de corrida, o Expresso das 6, e chegou inclusive a ser personal trainer de uma colega jornalista.
No documentário de 2013 “Histórias de Arcanjo“, sobre ele, Bruno Quintella, filho de Tim, expõe também essa faceta. “Ele sempre brigou com a balança e pode ter começado a correr justamente para fazer sua primeira reportagem como maratonista”, disse Bruno à coluna.
Tim assinou pelo menos duas matérias em primeira pessoa como maratonista, e na segunda, para o semanário Placar, em 1984, expõe suas razões:
“Comecei para perder peso, não aguentava mais ficar regulando o chope e a comida farta, que eu amo.” Ao final, reforça o ponto: “Fui comemorar com os amigos e a família na Fiorentina. Três quilos mais magro, tracei um maravilhoso filé à Osvaldo Aranha com uns oito chopes –ou teriam sido nove? Não sei, é por isso que eu corro”.
Bruno, que também é corredor amador, e que começou na atividade após a morte do pai, disse à coluna lembrar de, logo ao acordar, ver Tim “pingando” quando voltava das corridas matinais. “Uma vez ele me disse que havia feito um treino de 16 km.”
Tim teve uma passagem pela sucursal carioca desta Folha e pela revista esportiva Placar, bastante combativa naqueles anos 1980, onde cobriu principalmente futebol. Ele assina, com colegas, a reportagem sobre o rumoroso “Caso Leandro”, quando o ex-lateral direito do Flamengo decidiu deixar a seleção brasileira que iria para a Copa do México, em 1986, em solidariedade ao colega Renato Gaúcho.
Um jornalista que se iniciou no fotojornalismo com Tim na Placar, Nilton Claudino da Silva, por pouco não tem o destino macabro do colega. Junto com uma repórter e um motorista da equipe da Redação de O Dia, Claudino foi torturado quando apurava reportagem sobre o domínio da comunidade do Batan por milicianos. A equipe havia alugado uma casa para contar com propriedade o que pretendiam descrever. O episódio, violentíssimo, e que deixou sequelas no trio, chegou ao cinema em “Tropa de Elite”.
Se vivo, Tim completaria 75 anos nesta terça (18). O documentário “Histórias de Arcanjo” está disponível no Globoplay até 30 de novembro.
