Em novembro passado, 918 brasileiros concluíram a maratona de Nova York, 28% mais do que em 2023. Na de Berlim éramos 1.732 em 2025, mais que os maratonistas da França e da Itália. E à Tóquio, em 1º de março, foram mais brasileiros que australianos.
Assim como cresce a quantidade de provas pelo Brasil, aumenta o número de amadores do país que viajam para dar curso a esse fetiche tardio que é disputar uma maratona, de preferência uma das “majors”, como são chamadas as provas de longa distância mais prestigiadas do mundo.
Hoje são sete: além das três citadas, há Boston, Londres, Chicago e, desde 2025, Sydney. No ano que vem, Xangai e Cidade do Cabo devem entrar para o time.
Todas são patrocinadas pelo laboratório transnacional Abbott, com presença em 160 países, o que indica que a rede pode crescer ainda mais.
Participar das majors, e também de outras provas chanceladas, oferece pontuação para um ranking oficial, e possuidores das melhores posições em suas faixas etárias são instados a disputar uma “finalíssima” mundial —numa major. A próxima será em Tóquio, nano que vem, com ao menos 2.000 participantes utilizando essa via.
Como se vê, é difícil deixar a coisa. Isso funciona como aquelas turmas de rua nos anos 1970, segundo a visão de nossas mães: entrar é fácil, sair…
A uberlandense Anamélia Tannus, que pretende em maio disputar sua ducentésima maratona em sua cidade natal, apresentada aos leitores desta coluna aqui, atualmente é a terceira brasileira do ranking em sua faixa etária –dos 65 aos 69 anos–, com o melhor tempo obtido em Valência, na Espanha.
São 18 brasileiras nessa categoria, e a que fecha a lista, Satie Kimura, que eu conheci por treinar na assessoria Pacefit, do querido educador físico Darlan Duarte, credenciou-se em Nova York com tempo superior a 8h30.
Mas há outras formas de dar azo ao fetiche, independente de performance. Quem corre todas as majors ganha o direito de possuir uma mandala, o mais fetichizado signo de distinção do maratonista amador.
Quando ganhou a sua, em Londres, em 2022, o médico Drauzio Varella ficou sabendo, pela rede social da Abbott Majors, que, aos 79 anos, era a pessoa mais velha a fazer jus à distinção na ocasião. Há dias, o também colunista da Folha disse que foi essa “a primeira consciência” de que a “idade tinha pegado forte”.
O problema é que para correr uma major não basta apenas “mucha plata”, mas classificar-se milagrosamente em sorteios prévios. Em Nova York, por exemplo, 1% dos candidatos são contemplados. Há ainda a via expressa da benemerência, mas ajudar o próximo dos países ricos em troca de uma inscrição custa alguns múltiplos do valor “base” –pode chegar a US$ 3.000, ou mais, em Nova York.
Há ainda inscrições para a corrida que celebra os 105 anos desta Folha, no próximo domingo (29). Não é, claro, maratona, mas os circuitos de 5 km e 10 km, além da caminhada de 3 km, passam pelo cenário mais bacana de São Paulo. Falo com conhecimento de causa: no domingo (22), corri uma das etapas do Circuito Sesc, justamente pelo centro histórico, com itinerário muito semelhante ao do evento do jornal. Fazer uma selfie com o edifício Altino Arantes, o Empire State Building paulistano, ao fundo, talvez valha o tempo não vivido sobre a ponte Queensboro.

