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Guadalajara recebe repescagem sob ameaça da violência – 27/03/2026 – Esporte

Há pouco mais de um mês, Guadalajara, a segunda maior cidade do México, estava abalada

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Há pouco mais de um mês, Guadalajara, a segunda maior cidade do México, estava abalada por uma onda de violência desencadeada pela captura e morte do chefe do cartel Ruben “El Mencho” Oseguera. As ruas estavam repletas de carros incendiados, comércios fechados e cápsulas de balas deflagradas espalhadas pelo chão.

Na noite de quinta-feira (26), a cidade mostrou uma face muito diferente. Guadalajara sediou sua primeira partida internacional de futebol desde aquela operação militar, enquanto se esforça para amenizar as preocupações com a segurança antes da Copa do Mundo, que o México sediará junto com os Estados Unidos e o Canadá.

Em uma partida intensa com poucas oportunidades de gol da repescagem intercontinental, a Jamaica derrotou a Nova Caledônia por 1 a 0 no Estádio Akron, com capacidade para 50 mil pessoas e quase lotado, dando mais um passo em direção ao sonho de voltar a uma Copa do Mundo após 28 anos.

“Foi algo que aconteceu em apenas um dia. No dia seguinte, tudo estava sob controle, então não cancelei as passagens de avião. Sempre tive confiança”, disse Rick Brown, um canadense de 53 anos nascido na Jamaica, que chegou à cidade na terça-feira com seus dois filhos pequenos para torcer por sua seleção na tentativa de se classificar para sua segunda Copa do Mundo.

“Me sinto bastante seguro. Há muitos guardas”, acrescentou, apontando para os policiais fortemente armados do lado de fora do estádio. “A cidade é ótima. Me lembra a Jamaica: as pessoas, a comida, o clima, é como um lar longe de casa”.

Mas grande parte da atenção estava fora do estádio.

Ambas as equipes chegaram ao estádio sob forte esquema de segurança. Militares e policiais armados com fuzis escoltaram as seleções desde o momento em que desembarcaram na cidade.

Guadalajara sediará quatro partidas da fase de grupos da Copa do Mundo, recebendo seleções como México, Espanha e Uruguai. As seleções da Coreia do Sul e da Colômbia também escolheram Guadalajara como suas bases.

Embora a cidade tenha buscado usar a Copa do Mundo como plataforma para atrair mais turismo e tenha investido em infraestrutura local e embelezado praças públicas antes da competição, a iminente chegada de cerca de 3 milhões de visitantes também colocou em evidência a violência dos cartéis e os milhares de desaparecidos no estado de Jalisco, cuja capital é Guadalajara.

“Continuamos reforçando a segurança, especialmente dentro do estado. Restabelecemos a presença institucional e as medidas de segurança para que as pessoas se sintam seguras e protegidas onde quer que vão. E a melhor forma de se sentir seguro é ver o pessoal de segurança por perto”, disse o secretário de segurança pública de Jalisco, Juan Pablo Hernandez, explicando que mais de 2.000 agentes estavam garantindo a segurança das equipes e dos presentes no estádio.

“Jamaica contra Nova Caledônia é uma das partidas-teste mais importantes que temos antes da Copa do Mundo”, acrescentou, mencionando que sua equipe recebeu treinamento do FBI e de diversas forças policiais, como as da França e da Colômbia, para lidar com quaisquer imprevistos relacionados à insegurança.

O presidente da Fifa, Gianni Infantino, disse que a entidade internacional de futebol está “analisando” a situação no México, mas minimizou as preocupações e enfatizou que tem “total confiança” no país, em sua presidente Claudia Sheinbaum e nas autoridades.

Crise de desaparecimentos

No México, mais de 132 mil pessoas estão registradas como desaparecidas. Jalisco, sede de um dos dois grupos criminosos mais poderosos do país —o Cartel Jalisco Nova Geração— responde por 10% do total.

Sheinbaum prometeu melhorar a capacidade das autoridades de encontrar os desaparecidos, aprimorando a coordenação entre as agências de segurança pública e facilitando o compartilhamento de dados entre os estados.

Mas pesquisadores e familiares das vítimas afirmam que o número de desaparecidos pode ser ainda maior, já que um em cada quatro casos não é denunciado por medo de represálias. Famílias em todo o país decidiram fazer justiça com as próprias mãos, criticando as autoridades locais por não fazerem o suficiente e, às vezes, buscando parentes e amigos por conta própria.

Em março do ano passado, em um caso que chocou o país, um grupo de busca entrou em uma fazenda a uma hora a oeste de Guadalajara após receber uma denúncia anônima e encontrou cerca de 200 pares de sapatos, centenas de peças de roupa e restos humanos carbonizados. As autoridades disseram posteriormente que o local parecia ser um centro de execuções e campo de treinamento do Cartel Jalisco Nova Geração.

Desde o ano passado, grupos de busca encontraram pelo menos 500 sacos contendo restos humanos em quatro valas dentro de um raio de 20 quilômetros do Estádio Akron, evidenciando a magnitude da crise de desaparecimentos que assola o estado.

“Não é que discordemos da Copa do Mundo; discordamos dos gastos públicos excessivos com estética ou limpeza de áreas para turistas, quando o México é um país que atravessa muitas crises, especialmente em relação à segurança pública e aos desaparecimentos”, disse Hector Flores, 45 anos, cofundador do grupo de busca Luz de Esperanza.

Falando em uma rotatória coberta com cartazes de pessoas desaparecidas em Jalisco, Flores lembrou que seu filho, Hector Daniel, foi levado de sua casa em maio de 2021 por funcionários da Procuradoria-Geral de Jalisco.

Desde então, ele fez da busca um modo de vida e, após anos de silêncio institucional, em junho, um tribunal reconheceu seu filho como vítima de desaparecimento forçado, confirmando não apenas o envolvimento de agentes do estado em seu desaparecimento, mas também reconhecendo que o Estado mexicano violou gravemente suas obrigações em matéria de direitos humanos.

A Procuradoria-Geral de Jalisco não respondeu a um pedido de comentário da Reuters.

“A Copa do Mundo é uma excelente oportunidade para pedir ajuda à comunidade internacional e para que conheçam a situação no México. É inaceitável que mais de 133 mil famílias estejam procurando seus entes queridos e absolutamente nada esteja acontecendo. Jalisco é uma vala comum, todo o México é uma vala comum”, disse ele.



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