terça-feira 21, abril, 2026 - 0:00

Brasília

Educação familiar é essencial na redução do machismo e feminicídios

Doze mulheres agredidas por dia no Brasil. Essa foi a média registrada em 2025. Foram ma

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Doze mulheres agredidas por dia no Brasil. Essa foi a média registrada em 2025. Foram mais de 4.500 vítimas de violência no ano passado, segundo a Rede Nacional de Observatórios. Por isso, embora esse tema pareça recorrente, é fundamental continuarmos a falar sobre ele.

O machismo estrutural é a causa da reprodução desses casos. Essa realidade é reconhecida pelos próprios homens, em geral. Um levantamento da ONU Mulheres com o Instituto Papo de Homem revelou que 81% dos homens e 95% das mulheres consideram o Brasil um país machista.

Portanto, para reverter números como os de agressão às mulheres, é essencial incluir os homens na conversa e na construção de soluções para o enfrentamento à violência.

Tem quem diga que nós mulheres mudamos o mundo. Com a palavra, o psicólogo Flávio Urra, que trabalha na reeducação com foco em autores de violência.

“Porque a gente sempre diz que as mulheres, elas mudaram o mundo. Tem uma série de pautas que as mulheres colocaram, que agora são legitimadas, aceitas socialmente, na mídia, nos filmes, novelas. E os homens não fizeram essa mudança. Então, os homens continuam com a mesma cabeça de 30 anos atrás, de 50 anos atrás, querendo aquele modelo de família, aquele modelo de mulher que não existe mais.”

É claro que existem as exceções. O engenheiro Carlos Augusto Carvalho, de 55 anos, aprendeu inclusive em diálogos com outros homens que combater o machismo é uma luta diária.

“Eu acho que o machismo é essa coisa que está enraizada e que a gente tem que diariamente combater. Realmente levantar uma bandeira forte para eliminar isso do nosso caminho.”

Mas como são formados e sustentados os comportamentos machistas? Segundo Felipe Requião, consultor e facilitador de grupos de homens, a família, a escola e as redes sociais são protagonistas na formação da masculinidade — seja ela sadia, madura, benéfica ou tóxica. Ele explica como a família pode contribuir para ser um espaço de mudança.

“Quando a família não reforça estereótipos rígidos, por exemplo, o homem não chora, o homem não faz trabalho doméstico, o homem não cozinha, esse tipo de coisa.”

Para o psicólogo e terapeuta familiar Alexandre Coimbra do Amaral, quando a família adota o modelo de masculinidade tradicional, a criança recebe uma educação que pode favorecer a violência.

“Então, essa biografia mais enrijecida ensina que homens têm que deter o poder, precisam dominar, precisam submeter, e quando as pessoas não são regidas por esse binome, dominação e obediência, a violência precisa aparecer como uma espécie de cala boca.”

Mesmo assim, Alexandre Coimbra defende que o homem não deve usar a forma como foi criado como desculpa, mas se questionar se essa criação trouxe prejuízos.

“Que a gente possa se perguntar quais foram os prejuízos que eu tive na condição de homem por eu ter aprendido a ser homem dessa forma, com meu pai, com meu avô, com meu tio, com meu bisavô vendo todos esses homens. Quais foram as coisas que eles perderam na vida? Começa por ai pra gente abrir esse espaço na família.

Na opinião de Peu Fonseca, orientador familiar, é preciso uma identidade masculina nova, coletiva e social que não mate mulheres e meninas.

“E que ela se afaste do que nos trouxe aqui até hoje, porque o que nos trouxe aqui até hoje está matando mulheres. A gente não tem como admitir isso mais.  Chega! A gente precisa ensinar para os nossos meninos que eles precisam gostar de meninas e não odiar meninas. E não se sentirem ameaçados. O fato de as meninas ocuparem espaços que antes eram nossos, não diz sobre as meninas quererem nos dominar. Diz sobre a gente não querer aprender coisas novas. E é por aí que eu acho que a gente devia conversar.”

Para o jornalista e pesquisador em masculinidades Ismael dos Anjos, diferente das avós e mães, as meninas de hoje já aprendem que o lugar delas é onde quiserem. Agora é a vez dos meninos buscarem uma nova realidade em que cuidem de si e do outro.

“Meninos que, na brincadeira, em vez de passarem por só futebol, polícia e ladrão, pega-pega, brincadeiras que se um menino cai, rala o joelho, levanta, vira homem, também sejam estimulados a ter brincadeiras de cuidado”.

Ismael cita exemplos de como os meninos podem aprender que cuidado também é uma palavra masculina. E quem sabe mudar o futuro.

“Se existe professor e aluna, mamãe e filhinha, por que a gente não ensina professor e aluno, papai e filhinho para os nossos meninos? Então, entendo que mudar a chavinha para entender que o cuidado não seja algo compulsório para as meninas desde a mais tenra idade, apenas, mas também seja algo estimulado entre os meninos desde a mais tenra idade. Uma mudança que pode gerar, a longo prazo, uma mudança cultural e uma mudança desejável para uma sociedade de homens  que, caso ascendam a posições de influência, de liderança, saibam a responsabilidade que carregam consigo nesses papéis.”

Na próxima reportagem, a gente conversa sobre a escola e o machismo estrutural.

*Com produção de Luciene Cruz, edição de Daniel Ito e sonoplastia de Egberto Martins. 
 




Fonte GDF

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