Talvez esta coluna seja repetitiva, porque há 15 dias escrevi aqui na Folha sobre as pequenas trapaças, armadilhas e falta de educação que “sujam” o futebol no nosso país.
No final de semana passada, tivemos Corinthians x Palmeiras e o lance de Andreas Pereira estragando a marca do pênalti para prejudicar Memphis. A partir daí vemos uma overdose de opiniões que explicam o que é o futebol brasileiro —e consequentemente o Brasil.
Não quero vilanizar Andreas Pereira, que é apenas o exemplo da vez, mas sua atitude deveria ser digna de reflexão dele e de todos.
Dois pontos me chamam a atenção: 1 – há quem defenda o jogador, porque esse tipo de atitude “faz parte do futebol”, “se acabar com isso, o futebol morre”, “é o árbitro quem deve impedir essa atitude”; 2 – o Tribunal de Justiça Desportiva irá indiciar o jogador por conduta antidesportiva.
Começando pelo princípio, me parece quase absurdo ter que explicar que o errado é errado. O que Andreas fez é trapaça, é como colocar uma casca de banana no chão. É imoral, antiético, um péssimo exemplo para milhões de pessoas que assistiram ao jogo, ou ao menos viram o lance, e saem com a sensação de que jogar sujo vale a pena.
O futebol não vai acabar se esse tipo de lance não existir. Pelo contrário. Depois que saem as artimanhas e o antijogo, sobra apenas… futebol.
França e Argentina decidiram uma Copa do Mundo com seis gols em 120 minutos. Um dos melhores jogos da história desse esporte não precisou de uma ação semelhante para ser apoteótico. O PSG venceu a Liga dos Campeões passando por Liverpool, Arsenal e fazendo 5-0 na Inter de Milão sem antijogo, apenas com futebol.
Houve um tempo em que era normal ir a um jogo e gritar ofensas machistas, homofóbicas e racistas. Lembro que era corriqueiro dizer “essas coisas só se pode falar dentro do estádio”. Isso era “parte do futebol”. Hoje não deve mais ser e não faz nenhuma falta. Os tempos mudaram, nós mudamos, e todo mundo percebeu que um campo de jogo não pode ser um apêndice da sociedade.
Quem defende que Andreas tem o direito de trapacear e o árbitro é quem deveria estar atento e puni-lo parte da premissa que não há nenhum problema em agir mal, desde que não seja pego.
Outro problema é a intromissão do TJD paulista. Levar o jogador do Palmeiras a julgamento é burocratizar excessivamente o esporte. Caso Raphael Klaus, árbitro do jogo, tivesse visto a ação em análise, teria mostrado o amarelo. E o tribunal não deveria julgar casos de infração leve. A questão é mais moral do que prática —e em alguns casos o errado moralmente é mais importante do que sua consequência prática.
No fim das contas, a “trapaça futebolística” que está sendo personificada em Andreas Pereira é o que deve estar em pauta. O vale-tudo-para-vencer é correto? Vale a pena dar o mau exemplo para crianças que começam a gostar de futebol e imitam os ídolos? Os jogadores não deveriam ajudar os árbitros a construir um ambiente mais saudável no futebol?
Todas essas perguntas me parecem ter respostas muito simples.
O futebol é um reflexo da sociedade. E ela só melhora se cada um fizer a sua parte para isso. Andreas escorregou feio. Mais feio que Memphis.

