A auditora contábil Tairine Souza, 34 anos, moradora de São Paulo, recebeu o diagnóstico de câncer poucos dias depois de fechar o espaço onde realizaria seu casamento.
Diante do resultado que identificou linfoma não-Hodgkin, um tipo de câncer no sistema linfático, a primeira reação foi pensar que talvez precisasse adiar a cerimônia. O tratamento ainda era incerto, e uma das maiores preocupações era a possibilidade de perder o cabelo antes de subir ao altar.
“Pensei diversas vezes em adiar para me recompor e esperar o cabelo voltar a crescer. Mas, com a ajuda da consultoria de imagem, percebi que tinha opções e não precisaria adiar os planos”, conta Tairine.
A queda de cabelo começou no início da segunda sessão de quimioterapia. Para evitar o sofrimento de acompanhar a perda gradual dos fios, ela decidiu raspar a cabeça.
Naquele momento, recebeu o apoio de Sara Roberta, consultora do serviço de Consultoria de Imagem do Hospital Sírio-Libanês, que orientou sobre o uso de lenços, tecidos, modelos de peruca e outras alternativas para atravessar o tratamento preservando a própria identidade.

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A peruca ajudou Tairine a se reconhecer
Durante o processo, Tairine decidiu que usaria peruca para voltar ao trabalho e também no casamento. A escolha teve impacto direto na forma como ela se via. Na primeira prova do vestido, ainda sem a peruca, a paciente relata que se sentiu muito triste ao se ver de noiva sem cabelo.
Na segunda prova, a percepção mudou. Com a peruca, conseguiu se reconhecer novamente e teve a certeza de que poderia se casar parecendo ela mesma.
O casamento foi mantido e se tornou, para Tairine, uma celebração da vida. “Naquele dia me senti a mulher mais linda do mundo”, afirma. Segundo ela, foi possível fazer penteado para a cerimônia e até prender o cabelo para a festa.
Segundo a psicóloga Patricia Seta, de São Paulo, as mudanças na aparência durante o tratamento oncológico podem provocar sofrimento importante porque atingem uma parte da identidade do paciente.
“Queda de cabelo, ganho ou perda de peso, alterações na pele, amputações ou mudanças na funcionalidade de algum órgão podem tornar a doença visível para outras pessoas”, explica a psicóloga. Com isso, alguns pacientes passam a sentir fragilidade, dificuldade de se reconhecer no próprio corpo e receio de exposição.
Segundo Patricia, a autoestima e preservação da identidade não significam ausência de tristeza ou medo, mas ajudam o paciente a ter mais recursos emocionais para lidar com a jornada.
A rede de apoio, formada por familiares, profissionais de saúde e iniciativas como a consultoria de imagem, também pode favorecer a adesão ao tratamento e melhorar a qualidade de vida.

Além de roupa e maquiagem
“A ideia do serviço de consultoria de imagem surgiu de forma espontânea, quando pacientes oncológicas começaram a me procurar com dúvidas sobre como lidar com mudanças provocadas pelo tratamento”, relata Sara Roberta.
A demanda mostrou que havia necessidade de um espaço de escuta e orientação prática dentro do hospital. Mas, na prática, a consultoria não se limita à escolha de roupas, maquiagem ou cores.
O atendimento considera a imagem como um todo, incluindo postura, comunicação, conforto, segurança e a forma como cada paciente deseja ser percebido. Entre as demandas mais comuns estão:
- Orientações sobre queda de cabelo;
- Perucas, lenços e touca de crioterapia;
- Cuidados com fios em crescimento;
- Roupas para alterações de peso;
- Lingeries adaptadas;
- Próteses externas para pacientes mastectomizadas;
- Roupas de banho para disfarçar bolsas de ostomia;
- Armações de óculos para suavizar falhas nas sobrancelhas;
- Maquiagem para mudanças na pele.
Retomada da rotina também exige cuidado
O acompanhamento pode ocorrer antes, durante ou depois do tratamento, conforme a necessidade de cada pessoa. Alguns pacientes procuram apoio antes da quimioterapia para se preparar.
Outros buscam ajuda apenas na retomada da rotina, ao voltar ao trabalho, participar de eventos, viajar ou reconstruir a vida social. Hoje, ao olhar para trás, Tairine diz que deixaria uma mensagem de confiança a quem acabou de receber um diagnóstico de câncer.
“O tratamento é uma fase, não a sua vida inteira. Existem alternativas para lidar com os efeitos do tratamento sem perder sua identidade e autoestima”, afirma.

