O mais prolífico colega colunista desta Folha, Hélio Schwartsman, já falou aqui sobre o “viés cognitivo inscrito em nossos cérebros” que nos leva a “vibrar com as defesas do Vozinha“, o goleiro de Cabo Verde que, nesta sexta (3), novamente deve ser a figura mais apoiada e amada —ou odiada, caso entregue o ouro para a Argentina— no Brasil e talvez em todo o Sul Global que acompanha a Copa do Mundo.
Esse “desejo meio metafísico de reequilibrar os pratos da balança da justiça universal”, como diz Hélio, já devidamente tipificado como “underdog effect” (efeito azarão), é vivido com certa permanência por quem, como eu, torce em regime 24/7, na esfera doméstica, por um “underdog” —no meu caso, a venerável Associação Portuguesa de Desportos.
Há um problema de ordem lógica, talvez mesmo uma falácia lógica, em torcer para o mesmo underdog de sempre, uma vez que fazer isso significa desejar que o azarão ganhe títulos —no plural.
Ao ganhar títulos, o underdog torna-se necessariamente cachorro grande, evanesce como categoria filosófica.
É claro que, numa Copa do Mundo, a coisa é um pouco diferente: de quatro em quatro anos pode-se escolher o azarão da vez. Até hoje, os países africanos figuram como eternas promessas para levar o caneco. Há uma profusão deles, portanto, para escolher.
Embora eu tenha idade para ter visto times bem mais competitivos da Portuguesa, ela foi tragada, na última década e meia, para um limbo midiático-esportivo e hoje se vê relegada a disputar a quarta divisão nacional —a propósito, avançou de fase sábado passado num jogo dramático contra o Sampaio Corrêa, o de Saquarema (RJ). Neste sábado (4), enfrenta o primeiro de outro mata-mata, contra o Marcílio Dias, de Itajaí (SC).
Contra o Sampaio, nosso centroavante resolveu a parada ao cabecear um latereio aos 47′ do segundo tempo, livrando-nos da infame disputa por pênaltis.
Eu estava, ora pois, sábado no Canindé junto com um amigo colega de faculdade corintiano da minha filha que, quando me acompanha nessas jornadas —e foram algumas tantas nos últimos cinco anos—, manifesta seu amor pela Burra mais do que eu.
Ele, como minha outra filha, sabe de cor as músicas da torcida, e as canta com ardor até chegar à estação de metrô da volta.
Sem querer magoar o Felipe, ter a companhia de alguém que torce para um rival no Canindé só realça a condição de inferioridade de quem não ganha títulos. A presença dele só é possível por sermos underdogs, “segundo time do coração”, algo que não representa risco ao verdadeiro time de eleição.
Se sobreviesse uma situação de real rivalidade, esse apoio seria impossível.
Chega a ser paradoxal, mas admiro quem organicamente se põe contra a corrente. Outro corintiano de minha relação vibrou quando a Inglaterra parou Camarões nas quartas de final da Copa de 1990, talvez a única pessoa em todo o Brasil a fazê-lo.
Ele tampouco ficou feliz com a campanha da Portuguesa em 1996, quando fomos vice-campeões, ganhando e jogando como nunca, até as coisas voltarem ao normal em Porto Alegre.
Talvez suas razões sejam mais inconfessáveis, em seu caso não duvido que beirem o supremacismo, mas não dá para acusá-lo de incoerência.

