Combinamos assistir ao jogo Estados Unidos x Bósnia, às 20 horas de Nova York, num bairro da pequena e pacata cidade de Morristown, em Nova Jersey, onde a seleção brasileira treina. Morristown não estava pacata. O bar, chamado Homestadt, não permitia mais entradas, de tão lotado.
Fomos a outro, o Revolution, a meia quadra dali. Era possível entrar, pagar uma cerveja e assistir ao jogo em pé, num telão. Não eram latinos, mas americanos mesmo, daqueles definidos numa canção de Caetano Veloso: “São muito estatísticos, têm gestos nítidos e sorridos límpidos. Olhos de brilho penetrante que vão fundo no que olham, mas não no próprio fundo”.
Olhos fixos no telão, comemoraram o primeiro gol de Balogun, anulado por impedimento pelo árbitro brasileiro Raphael Claus, com auxílio de Danilo Ricardo Simon Manis. Não observaram com a devida atenção para entender a posição irregular, até que a câmera lateral flagrou o calcanhar do atacante à frente do zagueiro da Bósnia.
O bar cantou um sonoro “aahhhhhhh”.
Eles entenderam, o que parece um pleonasmo. Todo mundo e no mundo inteiro sabe o que é um impedimento, “offside”. Mas, há 32 anos, na primeira Copa nos EUA, juro, um americano virou-se para mim, na posição de observador no Rose Bowl, de Los Angeles, e pediu para que lhe explicasse como funciona o offside.
Quem faz a cultura do jogo nos EUA são os latinos, mas os americanos entenderam que o futebol representa grande parte da alegria existente neste mundo. Com a licença poética de misturar Caetano Veloso, outra vez.
Mais longe ainda que na Copa de 1994, nos anos 1980, o príncipe Edinho, filho do Rei Pelé, tinha vergonha de dizer na escola a profissão de seu pai. O episódio está no livro “Rei”. Edinho diz: “Meus colegas contavam que seus pais eram engenheiros, advogados, médicos… Como eu ia dizer que meu pai era jogador de futebol? Na minha cabeça, futebol era esporte de menina”.
Era assim nos EUA. Hoje todo mundo sabe que futebol é de meninas e meninos, de homens e mulheres, de quem quiser jogar.
O recém-lançado “American Soccer Nation” conta que a prática já existia da costa leste à oeste no século 19, antes da chegada dos imigrantes europeus. E organizada em liga, antes do futebol americano. Sempre foi mais inclusivo para imigrantes que outras modalidades de esporte, como o beisebol e o basquete, conta o professor Mark Franek, da YSC Academy, da Filadélfia, autor do livro.
O governo dos EUA ficou muito irritado ao perder a organização da Copa de 2022 para o Qatar, daí a insistência no atual Mundial. A razão é o mercado.
O capitalismo americano não quer mais ficar sem o futebol e, para isso, investe para que a cultura do jogo se espalhe dos imigrantes para o povo local típico. Como se viu no Homestadt e no Revolution, isso está acontecendo.
Com o príncipe Edinho, o entendimento disso veio numa manhã de 1986, na Vila Belmiro. Enquanto esperava o técnico dos juvenis para se exercitar com eles, ficou assistindo ao treino dos profissionais.
Rodolfo Rodríguez, Dunga, Serginho Chulapa, De León começaram a jogar. Edinho se espantou: “Pá, pum, bum, plá, plim… na trave! Meu Deus. Isso não é um jogo de meninas”. Foi assim que descobriu que seu pai era Rei de um esporte global, pelo qual os americanos tentam se apaixonar.

